Publicado em: 2026-08-17
Atualizado em: 2026-08-17
A China reduziu suas participações declaradas em títulos do Tesouro americano (Treasuries) em US$ 73,4 bilhões em um ano, mas o total de participações estrangeiras ainda assim subiu cerca de US$ 349 bilhões. Ao mesmo tempo, a acumulação de ouro pelo país está acelerando: quase 60% do aumento registrado entre janeiro e julho ocorreu em junho e julho.
Com Washington se preparando para captar US$ 1,367 trilhão entre o terceiro e o quarto trimestres, a retirada chinesa representa apenas uma fração da oferta que o mercado de Treasuries precisa absorver.

A China adicionou 58,8 toneladas de ouro às reservas desde janeiro, sendo que 59,3% desse aumento ocorreu em junho e julho.
As participações declaradas em Treasuries caíram 10% na comparação anual, embora a China tenha adicionado US$ 8,2 bilhões em maio, após a mínima de 17 anos registrada em abril.
O total de participações estrangeiras em Treasuries subiu US$ 349,4 bilhões, reduzindo a fatia da China na propriedade estrangeira para cerca de 7%.
As participações privadas estrangeiras implícitas avançaram cerca de US$ 378,5 bilhões, enquanto as participações oficiais estrangeiras recuaram ligeiramente.
A captação projetada de US$ 1,367 trilhão para o terceiro e o quarto trimestres equivale a 18,6 vezes a redução anual da China em Treasuries.
A China adicionou 1,12 milhão de onças-troy de ouro em junho e julho, o equivalente a 59,3% de todo o aumento registrado entre janeiro e julho. Somente em julho, foram 640 mil onças adicionadas, o maior avanço mensal de 2026, levando as reservas oficiais a um recorde de 76,08 milhões de onças.
O ouro oferece à China um ativo de reserva sem emissor soberano e, quando mantido em território nacional, com menor dependência da infraestrutura financeira de outros países. A liquidez, porém, continua sendo a limitação: o ouro físico não consegue substituir a velocidade e a profundidade dos ativos em moeda estrangeira altamente líquidos usados em intervenções, pagamentos e na gestão diária de reservas.
Uma nova sequência de compras em ritmo semelhante ao de junho e julho reforçaria o sinal de demanda estrutural por ouro. Já um retorno aos incrementos mensais menores observados no início de 2026 indicaria que a aceleração recente foi passageira.
A Administração Estatal de Câmbio da China (SAFE, na sigla em inglês) avaliou as reservas de ouro do país em US$ 306,354 bilhões em julho, o equivalente a cerca de US$ 4.027 por onça sobre o estoque de 76,08 milhões de onças. Trata-se de uma valorização contábil das reservas, não do preço pago por Pequim, mas ainda assim o país adicionou mais 640 mil onças no mês.
A continuidade das compras em patamares de valorização tão elevados sugere que a demanda chinesa está ficando menos sensível ao preço de curto prazo e mais atrelada ao papel crescente do ouro na diversificação das reservas dos bancos centrais.
Se as compras continuarem fortes com as valorizações em patamares elevados, o sinal fica mais difícil de tratar como uma acumulação oportunista. Isso apontaria para uma fonte mais persistente de demanda oficial por ouro, ainda que as compras dos bancos centrais não determinem a direção de curto prazo do metal.
As compras de ouro da China não explicam a totalidade da queda em Treasuries. As participações declaradas do território continental caíram de US$ 732,7 bilhões em maio de 2025 para US$ 659,3 bilhões em maio de 2026, embora maio tenha trazido um aumento de US$ 8,2 bilhões após a mínima de US$ 651,1 bilhões registrada em abril. A tendência de mais longo prazo aponta para baixo, mas a trajetória mensal mostra um rebalanceamento ativo, e não uma venda ininterrupta.
A China também detinha cerca de US$ 3,419 trilhões em reservas cambiais em julho. Ouro e Treasuries são apenas parte de uma carteira muito mais ampla, que inclui depósitos, títulos e múltiplas moedas. Variações no preço de mercado dos Treasuries também podem alterar as participações declaradas sem gerar um fluxo de caixa equivalente para outro ativo.
Os dados do TIC (Treasury International Capital) também não conseguem mapear com perfeição a titularidade final dos ativos. O próprio Tesouro americano alerta que títulos mantidos por meio de custodiantes no exterior podem ser atribuídos ao país de custódia, e não ao proprietário de fato. Os US$ 659,3 bilhões representam, portanto, a posição oficialmente declarada da China continental, não uma medida completa de todos os Treasuries ligados, em última instância, a entidades chinesas.
Os dados não conseguem rastrear cada dólar, mas descartam a hipótese de uma simples troca de Treasuries por ouro. A pergunta mais relevante é quem absorveu essa lacuna nos Treasuries.
A demanda estrangeira seguiu na direção oposta à da China. O total de participações estrangeiras em Treasuries passou de US$ 9,022 trilhões em maio de 2025 para US$ 9,371 trilhões em maio de 2026, um ganho de US$ 349,4 bilhões, enquanto a fatia da China no total estrangeiro caiu de 8,12% para 7,04%.
| Indicador de Treasuries | Maio de 2026 | Variação anual |
|---|---|---|
| Total de participações estrangeiras | US$ 9,371 tri | +US$ 349,4 bi |
| Participações oficiais estrangeiras | US$ 3,848 tri | -US$ 29,1 bi |
| Privadas estrangeiras* | US$ 5,523 tri | +US$ 378,5 bi |
| Fatia da China no total estrangeiro | 7,04% | -1,09 p.p. |
*As participações privadas estrangeiras são um cálculo da EBC, obtido a partir do total de participações estrangeiras do Tesouro americano menos as participações oficiais estrangeiras declaradas.
A mudança na composição da propriedade é maior do que sugere apenas a queda da China. As participações privadas estrangeiras implícitas aumentaram cerca de US$ 378,5 bilhões, mais de cinco vezes a redução de US$ 73,4 bilhões registrada pela China, enquanto as participações oficiais estrangeiras recuaram US$ 29,1 bilhões.
Os dados de transações de maio reforçam a mesma direção. As contas privadas estrangeiras compraram, em termos líquidos, US$ 53,6 bilhões em títulos do Tesouro americano de médio e longo prazo (notes e bonds), ante US$ 3,0 bilhões das instituições oficiais estrangeiras. Considerando todas as categorias do TIC, as entradas privadas estrangeiras somaram US$ 172,0 bilhões, enquanto os fluxos oficiais registraram uma saída líquida de US$ 39,9 bilhões.
A demanda de reposição é cada vez mais privada.
O Tesouro americano espera captar US$ 739 bilhões líquidos em dívida negociável em poder do setor privado entre julho e setembro, US$ 68 bilhões a mais do que a projeção de maio. Para o período de outubro a dezembro, a expectativa é de mais US$ 628 bilhões. A soma de US$ 1,367 trilhão equivale a 18,6 vezes toda a redução anual de US$ 73,4 bilhões nas participações da China.
A China consegue influenciar a precificação dos Treasuries na margem, mas uma necessidade de financiamento dessa magnitude vai muito além de qualquer gestor individual de reservas estrangeiras. O mercado ainda precisa de uma base ampla de capital para absorver as novas emissões.
Com a demanda oficial ocupando uma fatia menor, uma parcela maior da dívida precisa atrair capital privado, que tem mais liberdade para exigir um retorno mais alto ou alocar recursos em outro lugar. A precificação dos Treasuries fica, assim, mais exposta às condições necessárias para manter engajada essa demanda de reposição.
Os leilões de Treasuries mais recentes mostram que a demanda ainda está sendo absorvida. O leilão de US$ 42 bilhões em notes de 10 anos realizado pelo Tesouro americano em 12 de agosto recebeu US$ 106,3 bilhões em propostas, resultando em uma relação bid-to-cover de 2,53 e um yield máximo de 4,683%. No dia seguinte, o leilão de US$ 25 bilhões em bonds de 30 anos recebeu US$ 59,8 bilhões em propostas, com cobertura de 2,39 vezes e taxa de corte de 5,216%.
Esses yields refletem expectativas de inflação, a oferta fiscal, a política do Federal Reserve (Fed) e outras forças que vão muito além da China. Uma contribuição menor da demanda oficial estrangeira acrescenta mais uma fonte de pressão altista na margem.
Pesquisas do Fed sustentam esse mecanismo. Um estudo histórico estimou que uma redução mensal de US$ 100 bilhões nos fluxos oficiais estrangeiros para Treasuries poderia elevar os yields de cinco anos em cerca de 40 a 60 pontos-base no curto prazo, com o efeito recuando para perto de 20 pontos-base depois que a demanda privada reagisse. A estimativa se refere a um momento anterior do mercado de Treasuries e não pode ser transposta diretamente para 2026.
Quando a demanda oficial perde força, os yields precisam atrair o capital que a substitui.
A fatia do dólar nas reservas cambiais globais alocadas subiu de 56,42% no quarto trimestre de 2025 para 57,13% no primeiro trimestre de 2026, mesmo com a China continuando a adicionar ouro. O total de reservas cambiais declaradas somou US$ 13,10 trilhões.
O papel crescente do ouro nas reservas também embute um forte efeito de valorização. O Fundo Monetário Internacional (FMI) constatou que o fato de o ouro ter superado os Treasuries americanos como fatia das reservas oficiais em 2025 decorreu quase inteiramente da alta do preço do metal, enquanto a fatia do dólar no COFER se manteve amplamente estável.
A China está diversificando a composição de suas próprias reservas, enquanto o sistema mais amplo permanece fortemente ancorado no dólar. As evidências atuais apontam para uma diversificação maior das reservas, com o ouro ganhando peso estratégico e o dólar mantendo o papel dominante nas reservas cambiais globais.
O mercado de Treasuries não mostra, por ora, uma ruptura na demanda estrangeira. Os leilões recentes seguem bem cobertos e o total agregado de participações estrangeiras continua acima do nível de um ano antes. O sinal de alerta surge quando vários indicadores pioram ao mesmo tempo.
1. A China rompe seu piso recente. Os US$ 651,1 bilhões de abril continuam sendo o ponto mais baixo. Uma queda sustentada abaixo desse nível teria mais peso se o total agregado de participações estrangeiras também começasse a encolher.
2. A demanda privada estrangeira perde força. Maio é a referência atual, com US$ 53,6 bilhões em compras líquidas privadas estrangeiras de notes e bonds do Tesouro americano. Uma venda líquida sustentada eliminaria o principal contrapeso atual ao enfraquecimento da demanda oficial.
3. A cobertura dos leilões cai enquanto os yields de corte sobem. Os últimos leilões de 10 e 30 anos tiveram cobertura de 2,53 e 2,39 vezes, respectivamente. Uma sequência de coberturas mais fracas associada a yields em alta sinalizaria que absorver a nova oferta está ficando mais caro.
4. A captação permanece elevada ou volta a ser revisada para cima. O Tesouro americano já elevou sua estimativa para o terceiro trimestre em US$ 68 bilhões, para US$ 739 bilhões, com mais US$ 628 bilhões projetados para o quarto trimestre. Novas revisões para cima aumentariam o volume de dívida disputando capital.
Uma nova mínima da China se torna muito mais relevante se as participações estrangeiras estiverem caindo, a demanda privada estiver perdendo força e os leilões precisarem de yields mais altos para se completar.
O Tesouro americano agendou a divulgação dos dados do TIC referentes a junho de 2026 para o dia 17 de agosto. A posição da China mostrará se a recuperação de US$ 8,2 bilhões observada em maio teve continuidade, enquanto o total de participações estrangeiras e a demanda privada revelarão se a base mais ampla de compradores ainda está compensando a retirada chinesa.
A queda isolada da China muda a composição da propriedade. Já a queda da China combinada com uma demanda de reposição mais fraca muda o preço da dívida americana.