Publicado em: 2026-08-18
O rendimento do título do Tesouro americano de 30 anos subiu cerca de 4,5 pontos-base, para 5,31%, enquanto o título de dois anos avançou pouco mais de 1 ponto-base, para 4,18%. Isso ampliou o spread entre os vencimentos de 2 e 30 anos (2s30s) para cerca de 113 pontos-base, o maior nível desde abril.
A precificação de contratos futuros da CME aponta probabilidade de cerca de 30% para uma alta de juros do Federal Reserve (Fed) em setembro, ante cerca de 60% logo após a reunião do Fomc (Federal Open Market Committee) de julho.
Modelos do Fed de São Francisco mostram que a expectativa para os juros de curto prazo recuou ligeiramente, enquanto o prêmio de prazo do título de 10 anos subiu para 1,35%, ante 1,31% no dia da reunião do Fomc.
O rendimento real do título de 30 anos subiu de 2,63% em 2 de janeiro para 3,06% em 17 de agosto, acompanhando o movimento nominal quase ponto a ponto.
O Congressional Budget Office (CBO), órgão orçamentário do Congresso dos EUA, agora projeta um déficit de US$ 2,1 trilhões para o ano fiscal de 2026, com os juros líquidos acumulados até julho subindo US$ 117 bilhões, reflexo de uma dívida maior e de juros de longo prazo mais altos.
O rendimento do título do Tesouro americano de 30 anos fechou em 5,31% nesta segunda-feira, 17 de agosto, o maior nível de fechamento desde 2007. Grande parte dos dados econômicos dos Estados Unidos das últimas duas semanas apontava na direção oposta: a folha de pagamentos de julho encolheu, as vendas no varejo tiveram o mês mais fraco em mais de um ano, e tanto a inflação cheia quanto o núcleo desaceleraram. As apostas do mercado futuro para uma alta de juros em setembro, por sua vez, recuaram de mais de 50% de probabilidade logo após a reunião de julho para cerca de 30%.

Os rendimentos dos títulos de curto prazo do Tesouro já incorporaram essa mensagem. Os títulos de longo prazo, porém, seguiram na direção oposta, cobrando cada vez mais caro pelo financiamento do governo americano ao longo de três décadas.
A segunda-feira produziu um caso clássico de abertura da curva de juros americana (bear steepening), com os vencimentos mais longos subindo mais que os curtos. O rendimento do título de 30 anos avançou cerca de 4,5 pontos-base, para 5,31%, enquanto o título de referência de 10 anos subiu perto de 3 pontos-base, para 4,72%.
O título de dois anos, o vencimento mais atrelado à política monetária de curto prazo do Fed, subiu pouco mais de 1 ponto-base e fechou em 4,18%. Como os preços dos títulos caem quando os rendimentos sobem, o impacto se concentrou na ponta mais longa da curva.
O gatilho imediato veio do mercado de energia. O petróleo subiu depois que o prazo de 60 dias para um acordo entre Estados Unidos e Irã expirou, com Teerã descartando qualquer prorrogação. Mas o petróleo explica apenas os últimos pontos-base do movimento, não o patamar em si: o título longo já negociava acima de 5,2% antes da abertura de segunda-feira, e a sessão também marcou a liquidação financeira dos US$ 25 bilhões em novos títulos de 30 anos vendidos na semana anterior.
Os dados econômicos dos Estados Unidos desde a reunião do Fomc de 29 de julho vêm sistematicamente fracos. A folha de pagamentos não agrícola caiu em 23 mil vagas em julho, ante expectativa de alta de 83 mil, com os números de maio e junho revisados para baixo em conjunto em 103 mil. As vendas no varejo recuaram 0,6%, a maior queda mensal em mais de um ano, e o grupo de controle que alimenta o cálculo do PIB caiu 0,4%. O CPI cheio desacelerou para 3,4% e o núcleo, para 2,5%, mínima em cinco meses.
O Federal Open Market Committee manteve a taxa básica na faixa entre 3,50% e 3,75% por 9 votos a 3, com três presidentes regionais divergindo a favor de uma alta de 0,25 ponto percentual. Desde então, o mercado futuro de juros vem reduzindo o peso desse bloco mais hawkish, derrubando a probabilidade de alta em setembro de cerca de 60% para perto de 30%. Os rendimentos dos títulos de dois anos recuaram no mesmo ritmo, o reflexo natural, em preços, de um risco de aperto monetário em queda.
Um título do Tesouro de 30 anos, no entanto, não é uma aposta na próxima reunião. Ele reflete a taxa média de política monetária esperada ao longo de três décadas, mais o prêmio que os investidores exigem para travar capital por tanto tempo. Esses dois componentes podem caminhar em direções opostas, e é exatamente isso que vem acontecendo ao longo de agosto.
O modelo de decomposição de rendimentos do Fed de São Francisco quantifica essa divergência. Aplicado ao título de 10 anos, o modelo divide o rendimento de 4,77% observado em 14 de agosto entre uma taxa média esperada de curtíssimo prazo de 3,43% e um prêmio de prazo de 1,35%. Em 29 de julho, dia em que o Fomc manteve os juros, o mesmo modelo mostrava 4,75% divididos em 3,44% e 1,31%.
A expectativa para a política monetária caiu ligeiramente. O prêmio de prazo subiu. A decomposição do título de dois anos repete o mesmo padrão em escala menor: a expectativa para os juros de curto prazo recuou de 3,96% para 3,87%, enquanto o prêmio de prazo avançou de 0,21% para 0,24%.
O modelo não cobre o vencimento de 30 anos, mas a direção que ele capta ao longo da curva é a mesma que aparece agora na ponta mais longa: os investidores estão cobrando menos pela política do Federal Reserve e mais pelo risco de duração.
O modelo de prêmio de prazo explica a direção do movimento. As próprias curvas de juros publicadas pelo Tesouro americano mostram onde essa reprecificação de fato ocorreu. O órgão divulga uma curva nominal par e uma curva real par, esta última derivada dos títulos protegidos contra a inflação (TIPS, na sigla em inglês), e as duas vêm se movendo de forma quase idêntica desde janeiro.

| Título de 30 anos | 2 jan 2026 | 17 ago 2026 | Variação |
|---|---|---|---|
| Rendimento nominal | 4,86% | 5,31% | +45 pontos-base |
| Rendimento real (TIPS) | 2,63% | 3,06% | +43 pontos-base |
| Compensação implícita de inflação | 2,23% | 2,25% | +2 pontos-base |
Fonte: Departamento do Tesouro dos Estados Unidos, curva de juros par diária e curva de juros real par diária.
Por essa medida aproximada, a compensação de inflação implícita de longo prazo praticamente não se alterou, e essa diferença não reflete apenas expectativas: ela também carrega prêmios de risco de inflação e de liquidez.
O que essa comparação deixa claro é que praticamente todo o movimento de 2026 nos títulos longos do Tesouro veio dos rendimentos reais e da compensação por risco, não da visão do mercado sobre os preços futuros.
Resta a pergunta mais difícil: por que os investidores estão exigindo uma compensação real maior para carregar títulos de longa duração?
O cenário fiscal adiciona uma fonte de pressão. O Tesouro americano espera captar US$ 739 bilhões em dívida líquida negociável em mãos privadas no trimestre de julho a setembro, US$ 68 bilhões acima da projeção feita em maio, com mais US$ 628 bilhões previstos para o trimestre de outubro a dezembro.
O CBO agora projeta um déficit de US$ 2,1 trilhões para o ano fiscal de 2026, US$ 200 bilhões acima da estimativa de fevereiro, principalmente por causa da arrecadação mais fraca com tarifas.
A linha de juros é o número mais revelador. Os juros líquidos sobre a dívida pública somaram US$ 963 bilhões nos primeiros 10 meses do ano fiscal, alta de US$ 117 bilhões, ou 14%, na comparação anual. O CBO atribui o aumento a uma dívida maior e a juros de longo prazo mais altos, com a queda dos juros de curto prazo compensando apenas parte do efeito. Ou seja, o orçamento federal já reflete a mesma divisão da curva que o mercado de títulos está precificando.
A oferta de títulos, por si só, ainda não foi o gatilho do movimento. O refinanciamento trimestral de agosto manteve estáveis os volumes dos leilões de cupom nominal: US$ 58 bilhões em títulos de três anos, US$ 42 bilhões em títulos de 10 anos e US$ 25 bilhões em títulos de 30 anos, com o Tesouro sinalizando que não haverá aumento por vários trimestres.
A demanda no leilão de 13 de agosto se manteve firme, com a taxa de corte em 5,216% e uma relação bid-to-cover de 2,39, com uma cauda mínima. Os compradores estão comparecendo e precificando o papel na máxima em um quarto de século.
Essa divergência já extrapola o mercado de títulos, porque a redução nas apostas de alta de juros do Fed não está se traduzindo em crédito de longo prazo mais barato. A taxa média da hipoteca fixa de 30 anos ficou em 6,67% em 13 de agosto, movendo-se conforme a ponta longa da curva, e não conforme os juros básicos do Fed.
A ata da reunião de julho do Fomc sai na quarta-feira, 19 de agosto, e deve mostrar o quanto os três dissidentes chegaram perto de convencer o comitê. Uma leitura mais hawkish elevaria a ponta curta da curva e a achataria, o que enfraqueceria o argumento apresentado aqui. Mas se o título de dois anos permanecer ancorado enquanto o de 30 anos seguir acima de 5,2%, fica muito mais difícil descartar a separação entre expectativas de política monetária e risco de duração.
Testes mais decisivos vêm no mês que vem, com o CPI de agosto em 11 de setembro e a decisão do Fomc nos dias 15 e 16. Até lá, o título longo segue respondendo a uma pergunta que o Federal Reserve não controla: quanto vale o risco fiscal americano ao longo de três décadas?