As remessas atingiram US$ 905 bilhões e sobreviveram a todas as crises, enquanto o investimento estrangeiro direto caiu 41%. Deportações e impostos representam um risco.
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As remessas atingiram US$ 905 bilhões e sobreviveram a todas as crises, enquanto o investimento estrangeiro direto caiu 41%. Deportações e impostos representam um risco.

Publicado em: 2026-06-08

  • As remessas globais atingiram US$ 905 bilhões em 2024, um aumento de 4,6% em relação aos US$ 865 bilhões do ano anterior, sendo que US$ 685 bilhões desse montante foram destinados a países de baixa e média renda. Essa soma é maior do que o total combinado de investimento estrangeiro direto e ajuda oficial ao desenvolvimento. Na última década, as remessas cresceram 57%, enquanto o investimento estrangeiro direto em economias em desenvolvimento caiu 41%.

  • O México recebeu US$ 61,79 bilhões em 2025, uma queda de 4,6% em relação ao recorde de US$ 64,75 bilhões em 2024. A queda encerrou uma sequência de 11 anos de crescimento e marcou o primeiro declínio anual desde 2020. Quase 160.000 deportações em 2025, das quais mais de 90% envolviam residentes de longa data e remetentes ativos, impulsionaram a contração.

  • Uma taxa federal de 1% sobre transferências em dinheiro entrou em vigor em 1º de janeiro de 2026, conforme previsto na Lei "One Big Beautiful". Ela isenta transferências bancárias e por cartão, dividindo o mercado em uma categoria para bancarizados e outra para todos os demais. Com um custo médio global de envio de 6,36%, o sistema formal já arrecada cerca de US$ 57 bilhões por ano com esses fluxos em taxas.

  • Os remetentes aumentaram o valor médio das remessas em cerca de 25% em 2025, antecipando-se ao temido bloqueio, elevando os fluxos para grande parte da América Latina em mais de 16%. Esse comportamento antecipa as transferências em vez de aumentá-las. O aumento dos custos formais está direcionando o volume para as redes hawala e para as stablecoins lastreadas em dólar, algo que a contabilidade da balança de pagamentos não consegue captar.


O México recebeu US$ 14,45 bilhões em remessas no primeiro trimestre de 2026, um aumento de 1,4% que os bancos locais consideraram o melhor início de trimestre desde 2023. O resultado foi divulgado três meses depois de o país registrar sua primeira queda anual nas remessas em mais de uma década.


Globalmente, o panorama parece ainda mais estável. As remessas atingiram US$ 905 bilhões em 2024, dos quais US$ 685 bilhões foram destinados a países em desenvolvimento, uma soma superior ao investimento estrangeiro direto e à ajuda oficial ao desenvolvimento combinados. A aparente tranquilidade desses números esconde um sistema que está sendo silenciosamente desviado dos padrões que os medem.


Um sistema de 905 bilhões de dólares que superou o investimento estrangeiro direto em 250 bilhões de dólares.

Na última década, as remessas para países de baixa e média renda cresceram 57%, enquanto o investimento estrangeiro direto nessas mesmas economias caiu 41%. Em 2024, o total anual de remessas atingiu US$ 685 bilhões. As remessas já haviam ultrapassado o investimento estrangeiro direto em países em desenvolvimento em mais de US$ 250 bilhões em 2023, uma diferença que o Banco Mundial prevê que continuará a aumentar.

Remittances Hit $905 Billion

O fluxo conquistou essa liderança fazendo o que nenhuma outra fonte externa de financiamento faz de forma confiável. Quando a renda global contraiu 3% em 2020, o investimento estrangeiro direto (IED) global caiu cerca de 42%, enquanto as remessas diminuíram apenas cerca de 1% e se recuperaram em um ano. A mesma resiliência se manteve em 2008, quando o capital privado fugiu dos mercados emergentes e as transferências de migrantes continuaram chegando.


O mecanismo por trás disso é comportamental. Os migrantes reduzem seus próprios gastos antes de diminuírem o que enviam para casa, e enviam mais quando a economia de seus países de origem enfraquece. As Nações Unidas e o Banco Mundial classificam as remessas como o fluxo externo menos volátil para as economias em desenvolvimento, uma propriedade anticíclica que nenhum título soberano ou programa de ajuda possui de forma consistente.


Para onde vai o dinheiro: Índia com US$ 129 bilhões e economias vivendo com 45% do PIB.

A Índia manteve-se como o maior beneficiário em 2024, com US$ 129 bilhões, posição que ocupa desde 2008. O México veio em seguida, com US$ 68 bilhões, seguido pelas Filipinas, com US$ 40 bilhões, e pelo Paquistão, com US$ 33 bilhões. Em termos absolutos, o fluxo concentra-se nas grandes economias, mas seu impacto é mais forte nas pequenas.


As remessas representam cerca de 45% do PIB no Tadjiquistão, a economia mais dependente do mundo, seguida por Tonga com 38%, Nicarágua e Líbano com cerca de 27% e Samoa com cerca de 26%. A média global é inferior a 1%. Na Guatemala, onde as remessas representam quase 19% do PIB, uma queda de 5% nos fluxos eliminaria quase um ponto percentual inteiro do crescimento da produção, uma perda que nenhum banco central consegue compensar sozinho.


A África demonstra o desenvolvimento da matemática de forma mais evidente. Nos últimos anos, o continente recebeu cerca de 90 bilhões de dólares por ano em remessas, mais do que seus fluxos líquidos de investimento estrangeiro direto e ajuda externa, que giram em torno de 60 bilhões de dólares cada.


Esses fluxos estabilizam as contas correntes e as reservas cambiais, e influenciam a credibilidade soberana que determina o que os governos africanos pagam para tomar empréstimos, a mesma diferença de preços examinada na análise da EBC sobre a diferença de 9% versus 4,7% nos empréstimos enfrentada pela África.


Três políticas que nunca foram concebidas para funcionar juntas.

Pela primeira vez desde que este sistema atingiu escala, três forças políticas distintas o pressionam simultaneamente. Nenhuma foi concebida levando em conta as outras. Juntas, elas puxam na mesma direção, e ninguém as conectou em uma única cadeia.


O Processo de Deportação

Cerca de 160.000 pessoas foram deportadas dos Estados Unidos em 2025, e mais de 90% dos casos mexicanos envolviam residentes de longa data que viviam no país há mais de quatro anos.


Esses eram trabalhadores com renda consolidada e anos de contribuições constantes. Sua deportação, combinada com pelo menos 200.000 novos migrantes a menos e uma queda de aproximadamente 500.000 pessoas na população de países remetentes, eliminou cerca de US$ 3 bilhões em transferências.


O México sofreu o maior impacto individual. As remessas familiares caíram para US$ 61,79 bilhões em 2025, uma queda de 4,6% em relação ao recorde de US$ 64,75 bilhões em 2024, o maior declínio anual em 16 anos e o primeiro desde 2020.


A valorização do peso em cerca de 10% em relação ao dólar, juntamente com a inflação interna, reduziu o poder de compra real desses fluxos de renda em cerca de 14% para as famílias receptoras.


Imposto de 1% sobre o dinheiro em espécie para quem não possui conta bancária.

Uma taxa federal de 1% sobre remessas entrou em vigor em 1º de janeiro de 2026, conforme previsto na Lei "One Big Beautiful" assinada em julho do mesmo ano. Ela se aplica somente a transferências financiadas com dinheiro em espécie, ordens de pagamento ou cheques administrativos, os instrumentos mais utilizados por remetentes de baixa renda e sem documentos. Transferências de contas bancárias e cartões de débito ou crédito dos EUA são isentas.


O modelo divide o mercado em dois. Os remetentes com acesso a contas bancárias não pagam nada, enquanto aqueles sem acesso pagam por cada dólar enviado, o que afeta principalmente as pessoas para as quais o sistema foi criado. A taxa inicial era de 5% nas primeiras versões e estabilizou-se em 1%, com a Comissão Conjunta de Tributação projetando uma receita de cerca de US$ 10 bilhões ao longo de dez anos.


A Máquina de Taxa de 6,36%

O custo de movimentar o dinheiro é anterior a ambas as outras forças e supera em muito o novo imposto. O envio de remessas custa, em média, 6,36% em nível global no terceiro trimestre de 2025, mais que o dobro da meta de 3% estabelecida pelos governos para 2030. Os bancos continuam sendo o canal mais caro, e a África Subsaariana o destino mais caro, com 8,78%, em comparação com 5,18% para o Sul da Ásia.


A essa taxa média, o sistema formal extrai quase US$ 57 bilhões por ano de um total de US$ 905 bilhões em fluxos migratórios. Isso é mais do que qualquer outro país recebe em remessas, com exceção da Índia e do México. A meta de 3% não será atingida, visto que os corredores ainda carecem de opções de baixo custo, principalmente na África.


O lado do remetente também está esfriando.

O arrefecimento do mercado de trabalho nos EUA está causando danos por si só, independentemente de qualquer deportação. O BBVA observa que as condições se tornaram desfavoráveis para os setores que mais empregam trabalhadores migrantes mexicanos, incluindo construção civil, hotelaria e indústria leve.


A redução da jornada de trabalho e a queda dos salários nesses setores diminuem o excedente que se torna uma transferência, muito antes de qualquer medida coercitiva remover um único trabalhador.


Essa pressão agrava a mudança demográfica já em curso. A imigração para os Estados Unidos diminuiu drasticamente desde 2024, e o crescimento das remessas historicamente acompanhou a chegada de novos remetentes, e não o aumento dos pagamentos dos remetentes já existentes.


Com a diminuição do fluxo de novos trabalhadores e a queda nos rendimentos da força de trabalho existente, o motor que gerou 11 anos consecutivos de crescimento no México perdeu seus dois principais impulsionadores simultaneamente.


O aumento de 25% que parece crescimento, mas não é.

O dado mais mal interpretado em 2025 foi o aumento no valor médio das transferências. Em toda a América Latina, excluindo o México, os remetentes aumentaram o valor médio das remessas em cerca de 25%, elevando os fluxos anuais para Honduras em 25%, Guatemala em 19% e El Salvador em 18%.


O aumento refletiu o medo da deportação, e não o crescimento da prosperidade. Os remetentes que enfrentavam a possibilidade de deportação enviaram o máximo de dinheiro possível para casa enquanto ainda recebiam em dólares, uma precaução que os analistas esperam que diminua em 2026, porque os valores mais altos já excedem o que a maioria consegue suportar. Antecipar as transferências antes de uma saída forçada é um sinal de um sistema sob pressão, mais próximo de uma lenta corrida aos bancos do que de crescimento.


A divisão entre o México e seus vizinhos confirma essa interpretação. Os migrantes mexicanos já vinham enviando remessas próximas ao limite máximo de sua renda há anos, então não podiam antecipar mais gastos, razão pela qual o México apresentou queda enquanto o resto da região cresceu exponencialmente.


A recuperação do México no primeiro trimestre de 2026 segue a mesma lógica, com o BBVA ainda projetando entradas anuais próximas a US$ 60 bilhões, abaixo do recorde de 2024, já que a força inicial parece ser o resultado final da antecipação de investimentos em 2025, conforme demonstrado pelos dados.


Hawala, stablecoins e os canais que os dados da balança de pagamentos não conseguem visualizar.

Com o aumento dos custos formais, o volume de transações está migrando para canais que as estatísticas oficiais nunca capturam. Remetentes da Nigéria, Índia e de toda a América Latina movimentam dinheiro por meio de redes hawala, mensageiros confiáveis e transferências ponto a ponto que operam fora dos sistemas regulamentados.


Um estudo do Banco de Compensações Internacionais (BIS) de maio de 2025 concluiu que custos mais elevados de remessas tradicionais estão fortemente associados a maiores fluxos transfronteiriços de stablecoins e bitcoins de baixo valor para economias em desenvolvimento, e que os controles de fluxo de capital pouco fazem para impedi-los.


O mercado de criptomoedas evoluiu da teoria para a infraestrutura. A oferta total de stablecoins praticamente dobrou, passando de cerca de US$ 150 bilhões para US$ 305 bilhões entre meados de 2024 e outubro de 2025, antes de se estabilizar, com as remessas representando aproximadamente 15% do uso.


Os tokens em dólar agora liquidam centenas de bilhões em valor transfronteiriço por ano, e uma parte disso corresponde ao mesmo suporte familiar que antes era feito por meio de operadores licenciados.


O resultado da política contraria sua própria intenção. Um imposto de 1% destinado a aumentar a arrecadação incentiva os remetentes de dinheiro a recorrerem ao sistema hawala, que acarreta o risco de lavagem de dinheiro e financiamento do terrorismo que os reguladores passaram duas décadas tentando eliminar.


O valor de US$ 905 bilhões contabiliza apenas as ferrovias formais, portanto, à medida que essas ferrovias perdem volume, o número oficial subestimará cada vez mais um fluxo que continua a se movimentar na clandestinidade.


Considerações finais

A maioria das previsões aponta agora para um crescimento formal fraco em 2026, provavelmente inferior a 1%, com a direção sendo definida menos pela migração do que pela forma como os países de origem respondem aos custos, à fiscalização e ao valor das remessas em dólares que ainda recebem. O sistema de financiamento para o desenvolvimento mais resiliente do último meio século nunca foi concebido, financiado ou anunciado por qualquer instituição, e está agora sendo remodelado por três políticas criadas para fins distintos.


As economias mais expostas a essa reestruturação são as que têm menor capacidade de absorver as perdas, desde o Tadjiquistão e Tonga até os países da América Central, que dependem de um quarto de sua produção em transferências. Para os investidores que avaliam o risco soberano nesses mercados, o valor de US$ 905 bilhões já não importa. O número a ser acompanhado é a parcela desse montante que escapa silenciosamente pelos canais que podem ser mensurados.

Aviso Legal: Este material destina-se apenas a fins informativos gerais e não deve ser interpretado como (nem considerado como) aconselhamento financeiro, de investimento ou qualquer outro tipo de orientação na qual se deva basear decisões. Nenhuma opinião expressa neste material constitui recomendação da EBC ou do autor de que qualquer investimento, título, transação ou estratégia de investimento específica seja adequada para qualquer pessoa em particular.