Publicado em: 2026-08-10
O café arábica subiu cerca de um terço desde a mínima de junho, mesmo com o USDA projetando produção mundial recorde. O El Niño devolveu ao mercado um prêmio de risco climático, mas os estoques reduzidos da ICE e a venda lenta dos produtores brasileiros respondem por boa parte desse movimento.
O contrato de referência do café arábica fechou em 315,90 centavos de dólar por libra-peso em 7 de agosto, alta de 3,2% no dia e cerca de 32% acima da mínima de 238,85 centavos registrada em 9 de junho. O El Niño tem ficado com a maior parte das manchetes, com previsores elevando a probabilidade de um forte evento de aquecimento no Pacífico que deve se estender até o início de 2027.

O clima não está sustentando a alta por conta própria. Os estoques certificados de arábica na ICE caíram para 244.172 sacas em 7 de agosto, mínima em dois anos e meio e equivalente a cerca de um terço das 754.516 sacas registradas um ano antes. Os produtores brasileiros estão vendendo em ritmo lento, e o mercado já começou a olhar além da safra recorde que está sendo colhida agora.
A alta, portanto, traz uma pergunta mais específica: é o El Niño que está movendo esse mercado, ou ele chegou justamente quando havia excepcionalmente pouco estoque disponível para absorver um susto?
O café arábica de referência estava em 315,90 centavos de dólar por libra-peso em 7 de agosto, cerca de 32% acima da mínima de 9 de junho, com o mercado voltando a precificar o risco climático nas commodities agrícolas.
O El Niño não age isoladamente. Os estoques certificados de arábica na ICE caíram para 244.172 sacas em 7 de agosto, mínima em dois anos e meio, reduzindo o volume de café disponível para entrega e a capacidade do mercado de absorver qualquer susto de oferta.
As projeções de oferta continuam historicamente robustas. O USDA prevê produção mundial recorde de 189,7 milhões de sacas na safra 2026/27, das quais 71,9 milhões só no Brasil.
O maior risco climático está além da safra atual, na janela de florada do Brasil entre setembro e outubro e no volume de chuvas nos Central Highlands do Vietnã.
O café entrou em junho com o consenso do mercado apontando para baixa e saiu do mês carregando um prêmio de risco climático. A reversão deveu tanto ao que estava armazenado nos depósitos das bolsas quanto à própria previsão climática.
A virada foi abrupta. A Organização Internacional do Café (ICO) observou, em seu relatório de mercado de junho, que a confiança crescente de que o fenômeno evoluiria para um El Niño forte até o final de 2026 interrompeu a queda dos preços em 9 de junho, encerrando seis semanas consecutivas de perdas em Nova York.
A colheita também está atrasada. A Cooxupé, maior cooperativa de café do Brasil, informou que seus associados haviam colhido 67,3% da safra 2026 até 31 de julho, contra 74,2% um ano antes. A consultoria Safras & Mercado estimou o avanço nacional em 64% até 15 de julho, abaixo dos 77% do ano anterior e da média de cinco anos, de 70%.
Os produtores brasileiros reforçaram esse efeito, vendendo gradualmente em vez de escoar a safra em um mercado fraco, de modo que uma previsão recorde não se traduziu em café disponível livremente.
O El Niño deu o gatilho. Os estoques reduzidos deram a força.
No papel, a perspectiva de produção mundial é a mais forte em anos. O relatório semestral do USDA de julho trouxe recordes em praticamente todos os itens da safra 2026/27.

| Mercado | Sacas (milhões) | Variação anual |
|---|---|---|
| Produção mundial | 189,7 | +6,0% |
| Arábica mundial | 105,9 | +12,1% |
| Robusta mundial | 83,8 | -0,7% |
| Brasil total | 71,9 | +14,1% |
| Brasil arábica | 47,5 | +25,0% |
| Vietnã total | 32,5 | +2,5% |
| Estoques finais mundiais | 26,3 | +7,8% |
Ainda assim, o número do USDA para o Brasil fica bem acima dos 66,7 milhões de sacas oficiais da Conab. Uma diferença de mais de cinco milhões de sacas entre as duas estimativas mais acompanhadas do mercado deixa o tamanho real da safra em disputa, e a definição desse número pode pesar em qualquer direção.
Se o USDA estiver mais próximo da realidade, o peso dessa oferta deve, com o tempo, pressionar os preços para baixo. Se a Conab estiver mais correta, a margem de segurança entre o mercado e o El Niño já é mais estreita do que sugere a previsão global divulgada.
A questão de fundo é que a tabela do USDA e o estoque da bolsa medem coisas diferentes. A previsão de 189,7 milhões de sacas descreve a produção ao longo de um ano-safra. As 244.172 sacas na ICE descrevem café já classificado, armazenado e disponível para entrega imediata contra o contrato de referência. Uma métrica diz que a oferta mundial deve, no fim, ser ampla. A outra diz que a margem de segurança por trás do preço futuro está excepcionalmente estreita.
Produção recorde, ou seja, não significa estoque disponível recorde.
A safra recorde de arábica do Brasil foi resultado das chuvas durante a florada de setembro e outubro de 2025, às quais o USDA atribui as produtividades quase recordes em Minas Gerais. A chegada do El Niño em meados de 2026 não desfaz os grãos que já estão no pé.
Os grãos que sustentam a oferta hoje foram formados sob o clima do ano passado. O mercado futuro já começou a precificar o clima que vai formar a safra do próximo ano.
Isso coloca a próxima janela de florada, entre setembro e outubro de 2026, no centro das atenções do mercado. Os traders já apontam o risco de o El Niño atrasar essas chuvas, e o mercado já monitora sinais de seca: a Somar Meteorologia não registrou chuva em Minas Gerais na semana encerrada em 2 de agosto.
Episódios anteriores de El Niño coincidiram tanto com aumentos quanto com quedas na produção brasileira, o que torna a exposição do Brasil uma questão de momento das chuvas e estresse térmico, e não de uma quebra automática causada por seca.
O Vietnã está na outra ponta dessa exposição. Da previsão recorde de 32,5 milhões de sacas do país, 31,4 milhões são de robusta, e o volume de chuvas nos Central Highlands historicamente reage ao El Niño. O evento de 2015/16 reduziu fortemente a produção vietnamita. Por ora, esse mercado parece mais protegido: os estoques de robusta na ICE atingiram uma máxima de quatro meses e meio, de 4.261 lotes, em 7 de agosto, o movimento espelhado do arábica.
O prêmio de risco climático do arábica está chegando a um mercado com muito pouco café certificado por trás do contrato futuro. A ICE opera o contrato de referência Coffee C, e os estoques certificados são grãos classificados conforme os padrões da bolsa, armazenados e disponíveis para entrega contra esse contrato. A queda tem sido acentuada:
7 de agosto de 2026: 244.172 sacas
Um ano antes: 754.516 sacas
Isso representa uma queda de cerca de dois terços em doze meses.
Quando os estoques certificados são abundantes, uma manchete sobre o clima encontra oferta física visível pela frente, e a reação de preço fica contida. Quando os estoques estão perto de uma mínima em dois anos e meio, essa mesma manchete encontra uma margem de segurança muito menor, e atritos pequenos, como um atraso na colheita ou uma venda mais lenta, podem ter efeito desproporcional sobre o preço. Estoques baixos não criam a narrativa, mas amplificam qualquer narrativa que apareça.
O El Niño explica parte da alta, não a totalidade. Ele justifica por que os traders passaram, de repente, a pagar por proteção contra danos a safras que ainda não existem, mas não explica por que uma previsão climática, isoladamente, conseguiria elevar um mercado em cerca de um terço em oito semanas.
Isso exigiu estoques certificados em mínima de dois anos e meio, venda gradual por parte dos produtores brasileiros, uma colheita atrasada durante toda a temporada e um desacordo ainda não resolvido sobre o tamanho final da safra, fatores que se reforçam mutuamente.
Cada um desses sustentáculos pode se reverter. Se a venda dos produtores brasileiros acelerar, os estoques certificados se recompuserem e as chuvas de setembro chegarem no prazo, o prêmio pode se desfazer com a mesma rapidez com que foi formado. O próprio café demonstrou isso no segundo trimestre, quando uma sequência de previsões de oferta favoráveis levou o arábica a uma mínima de 19 meses em poucas semanas.
O El Niño está ajudando a elevar os preços do café novamente, mas é apenas um dos fatores, não a explicação completa. O mercado atual combina um prêmio de risco climático reconstruído, estoques certificados de arábica em mínima de dois anos e meio, venda lenta dos produtores brasileiros e uma colheita atrasada durante toda a temporada.
A previsão recorde para a safra 2026/27 continua sendo uma margem de segurança real. A pergunta em aberto é se Brasil e Vietnã conseguirão converter esse superávit no papel em estoque certificado antes que o El Niño comece a afetar o ciclo de produção seguinte.