Publicado em: 2026-09-17
Atualizado em: 2026-09-17
O café arábica caiu para perto da mínima em cerca de dez semanas, mesmo com os estoques certificados pela ICE encolhendo para 217.646 sacas, o menor volume desde 1999. Ao mesmo tempo, o Brasil passou a liberar uma quantidade bem maior de café para os canais globais de fornecimento, depois de meses de oferta mais apertada. Os contratos futuros reagem cada vez mais à oferta que se aproxima do mercado, e não aos estoques já esgotados nos armazéns da bolsa.

O arábica foi negociado a cerca de US$ 2,8170 por libra em 16 de setembro, após tocar US$ 2,8120 nos dias anteriores, sua mínima em cerca de dez semanas.
Os estoques de arábica certificados pela ICE caíram para 217.646 sacas, a mínima em 27 anos.
As exportações brasileiras de arábica somaram 2,866 milhões de sacas em agosto, alta de 25,7% na comparação anual, enquanto o total das exportações de café do Brasil atingiu um recorde para o mês, com 4,155 milhões de sacas, avanço de 31%.
Os embarques de café brasileiro para a Bélgica saltaram 245,3% em agosto, enquanto cerca de 64 mil sacas brasileiras aguardavam classificação da ICE até 14 de setembro.
Um aumento sustentado nos estoques certificados seria a evidência mais clara de que a oferta mais forte do Brasil está, finalmente, chegando ao sistema de armazéns da ICE.
Os contratos futuros de arábica caíram 0,7%, para US$ 2,8170 por libra às 11h47 GMT de 16 de setembro, segundo a Reuters, após tocarem US$ 2,8120 na segunda-feira. O patamar marcou a mínima em cerca de dez semanas. Em julho, os preços chegaram a ser negociados acima de US$ 3,50 por libra.
Os estoques da ICE seguem na direção oposta. Os estoques certificados de arábica caíram para 217.646 sacas, o menor nível desde 1999. Esses estoques cobrem apenas o café aprovado pela bolsa e disponível para entrega contra os contratos futuros Coffee C, não todo o café mantido globalmente.
A oferta imediatamente disponível para entrega na bolsa, portanto, ficou mais escassa justamente enquanto o arábica caiu com força em relação à máxima de julho. A mudança que está movendo os preços vem de mais a montante na cadeia, onde uma quantidade muito maior de café brasileiro passou a seguir para os canais de exportação.
O Brasil embarcou 2,866 milhões de sacas de 60 kg de café arábica em agosto, alta de 25,7% ante agosto de 2025. O total das exportações brasileiras de café atingiu 4,155 milhões de sacas, avanço de 31% na comparação anual e o melhor agosto da série histórica do Cecafé.
A aceleração seguiu em setembro. As exportações brasileiras de café verde somaram, em média, cerca de 13.500 toneladas métricas por dia útil nas duas primeiras semanas do mês, ritmo 51,5% superior ao do mesmo período do ano anterior, segundo dados do governo citados pela Reuters.
As exportações de café entre janeiro e agosto somaram 25,073 milhões de sacas, ainda 1,2% abaixo do mesmo período de 2025. Segundo o Cecafé, agosto foi beneficiado pela maior disponibilidade de arábica da nova safra, depois que as chuvas atrasaram a colheita e os grãos chegaram ao mercado mais cedo na temporada.
No fim de agosto, a safra 2026/27 do Brasil estava quase totalmente colhida. O país não inundou o mercado ao longo do ano inteiro: a oferta fluiu com mais força somente depois que a nova safra ficou disponível. O destino dessas exportações agora estabelece a ligação entre a safra brasileira e os estoques esgotados da ICE.
As exportações de café do Brasil para a Bélgica saltaram 245,3% na comparação anual em agosto, para 31.500 toneladas métricas, equivalentes a mais de 525 mil sacas de 60 kg, segundo dados do governo brasileiro analisados pela Terra Investimentos e divulgados pela Reuters.
A Bélgica merece atenção porque cerca de 70% dos estoques de arábica certificados pela ICE atualmente estão em Antuérpia. Grandes embarques brasileiros para o país não se transformam automaticamente em estoque da bolsa, e o total de 31.500 toneladas não é, por si só, uma medida do arábica certificável pela ICE. O número não mostra quanto desse café era arábica, quanto atendia às especificações da ICE ou quanto tinha como destino a entrega na bolsa. A Reuters observou que volumes incomumente altos de embarques para a Bélgica funcionam como um termômetro de oferta excedente, não como uma previsão direta de certificação futura.
Já existe um caminho mais direto para a certificação. Em 14 de setembro, 63.955 sacas brasileiras aguardavam classificação pela ICE, ao lado de 960 sacas quenianas. O café apresentado para classificação precisa atender aos requisitos de qualidade da bolsa antes de poder entrar no estoque certificado.
A Reuters também informou que a Olam buscava certificar entre 150 mil e 200 mil sacas para possível entrega contra os contratos futuros de dezembro, enquanto a Louis Dreyfus conduzia um programa semelhante, segundo fontes a par dos planos. As duas empresas não comentaram. Cerca de 300 mil sacas em entregas eventuais mais do que dobrariam os estoques certificados atuais, embora ainda deixassem os estoques abaixo do patamar de cerca de um milhão de sacas citado por fontes de mercado como confortável.
Os contratos futuros podem reagir antes da recuperação dos estoques quando entregas previstas alteram as expectativas sobre a oferta disponível. As estimativas de safra do Brasil sugerem que o salto das exportações em agosto também tem uma produção substancial por trás.
O USDA projeta a safra brasileira de café 2026/27 em 71,9 milhões de sacas, 14% acima da estimativa para a temporada anterior. Só a produção de arábica é projetada em 47,5 milhões de sacas, alta de 25%.
A StoneX está ainda mais otimista. A consultoria elevou, em 2 de setembro, sua estimativa para a safra brasileira de 75,3 milhões para 77,2 milhões de sacas, depois que trabalhos de campo e análises de produtividade apontaram desempenho melhor do que o esperado nas regiões produtoras.
O balanço global mais amplo também melhorou. A Organização Internacional do Café (OIC) agora estima a produção de 2025/26 em 183,6 milhões de sacas ante um consumo de 180,6 milhões, o que cria um superávit de cerca de 3 milhões de sacas depois de quatro temporadas seguidas de déficit. Esses déficits anteriores ajudam a explicar por que os estoques da ICE seguem excepcionalmente baixos mesmo com as perspectivas de produção mais fortes agora.
O clima reforçou recentemente a melhora nas perspectivas de oferta. Em atualização de 15 de setembro, o Rabobank informou que a primeira floração da safra 2027/28 do Brasil já havia aparecido em várias regiões, enquanto chuvas acima da média e maior umidade do solo reduziram as preocupações climáticas mais imediatas.
Uma grande incerteza permanece. A previsão da NOAA de 10 de setembro atribui probabilidade superior a 90% a um El Niño muito forte durante o outono e o inverno do Hemisfério Norte de 2026 a 2027. O fenômeno aumenta a probabilidade de efeitos climáticos regionais característicos, sem garantir danos às lavouras no Brasil.
Exportações mais fortes, uma safra brasileira maior e o café a caminho dos armazéns da bolsa já mudaram as expectativas de oferta. Falta, porém, a confirmação física.
Os estoques certificados pela ICE seguem em 217.646 sacas. Os grãos brasileiros que aguardam classificação precisam atender aos padrões da bolsa antes de entrar nesse total, e futuros embarques ainda podem seguir para canais comerciais comuns em vez de serem entregues contra os contratos futuros.
A safra 2027/28 também está apenas no início de seu ciclo de desenvolvimento. As chuvas recentes melhoraram as condições iniciais, embora a floração ainda precise de um clima adequado nas próximas semanas para que as estimativas de produção se tornem confiáveis.
A próxima evidência decisiva, portanto, virá dos dados dos armazéns, não de mais uma previsão de safra. Se o café brasileiro for aprovado na classificação e os estoques certificados começarem a subir de forma sustentada, a recuperação da oferta finalmente aparecerá nos números da ICE. Se os estoques permanecerem perto da mínima em 27 anos, a queda dos preços terá avançado ainda mais à frente da recomposição física que ela antecipa.
Não. Os estoques certificados pela ICE cobrem apenas o arábica aprovado pela bolsa e disponível para entrega contra os contratos futuros, não o total dos estoques globais. Eles podem permanecer extremamente apertados mesmo com produção e exportações em alta nos principais países produtores.
Fontes ouvidas pela Reuters indicaram que cerca de 300 mil sacas poderiam ser eventualmente entregues, volume suficiente para mais do que dobrar os estoques certificados atuais. Ainda assim, os estoques ficariam abaixo do patamar de cerca de um milhão de sacas citado como confortável.
Reprovações na classificação da ICE, uma desaceleração das exportações brasileiras ou uma piora nas condições da safra 2027/28 do Brasil poderiam enfraquecer as expectativas de recuperação da oferta, enquanto os estoques certificados seguem perto da mínima desde 1999.
O café brasileiro chegou ao ponto em que a narrativa de oferta pode ser testada contra os dados de estoque físico. A aprovação na classificação e um aumento sustentado dos estoques certificados mostrariam que a oferta mais forte da origem finalmente está reconstruindo o colchão da bolsa. Novas quedas nos estoques deixariam o mercado físico muito mais apertado do que sugere a recente movimentação dos preços.
Até que os estoques certificados voltem a subir, a queda dos preços segue à frente da recuperação de estoques que ela antecipa.