A inadimplência com cartões de crédito nos EUA atinge 12,8%. O consumidor está realmente em apuros?
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A inadimplência com cartões de crédito nos EUA atinge 12,8%. O consumidor está realmente em apuros?

Autor:Charon N.

Tradutor: Diego Bonfati

Publicado em: 2026-08-14

Principais Pontos

  • Os saldos de cartão de crédito subiram US$ 21 bilhões no segundo trimestre de 2026 (2T26), para US$ 1,26 trilhões, perto do recorde de US$ 1,28 trilhões registrado no fim de 2025.

  • Nos relatórios de crédito ao consumidor, a fatia dos saldos de cartão com atraso de 90 dias ou mais subiu de 7,6% no terceiro trimestre de 2022 (3T22) para 12,8% no primeiro trimestre de 2026 (1T26).

  • Pesquisadores do Fed de Nova York atribuem essa alta principalmente às dívidas baixadas como prejuízo (charge-off) que os credores agora reportam por mais tempo, e não a uma nova onda de pagamentos não realizados.

  • Os saldos que entram em atraso pela primeira vez estão, de forma geral, estáveis desde 2024, embora o Fed ainda classifique o ritmo como elevado.

  • A folha de pagamentos dos EUA caiu 23 mil vagas em julho, e os dois meses anteriores foram revisados para baixo em conjunto em 103 mil.


Dois números do mesmo relatório do Fed de Nova York apontam em direções opostas. Nos relatórios de crédito ao consumidor, a fatia dos saldos de cartão de crédito com atraso de 90 dias ou mais atingiu 12,8%, patamar associado ao período pós-crise financeira, enquanto o ritmo em que os tomadores voltam a ficar inadimplentes praticamente não mudou em dois anos. 

Inadimplência de cartões de crédito nos EUA

Por que a inadimplência dos cartões de crédito nos EUA parece tão grave

O Relatório Trimestral sobre Dívida e Crédito das Famílias mostrou que a dívida total das famílias recuou US$ 13 bilhões no segundo trimestre, para US$ 18,8 trilhões, com 4,7% dos saldos em algum estágio de inadimplência. Os cartões de crédito seguiram na direção oposta: subiram US$ 21 bilhões, ou 1,7%, para US$ 1,26 trilhões, depois de uma queda sazonal de US$ 25 bilhões no primeiro trimestre.


Cerca de 175 milhões de americanos possuem cartão de crédito, e aproximadamente 60% mantêm saldo devedor em vez de quitá-lo todo mês, a uma taxa média de 22,15% sobre os saldos que rendem juros.


Diante desse cenário, o número de inadimplência pareceu grave. Entre o terceiro trimestre de 2022 (3T22) e o primeiro trimestre de 2026 (1T26), a fatia dos saldos de cartão registrada nos relatórios de crédito ao consumidor com atraso de 90 dias ou mais subiu de 7,6% para 12,8%, o que gerou preocupação de que os americanos estivessem ficando inadimplentes em ritmo não visto desde a Grande Recessão.


Como dívidas antigas baixadas como prejuízo inflam a taxa de 12,8%

Os 12,8% são uma medida de estoque, que contabiliza todo saldo inadimplente atualmente presente nos relatórios de crédito, independentemente de quando surgiu. Já a medida de fluxo contabiliza apenas o que passa a ter 90 dias de atraso recentemente. Um estoque pode continuar subindo muito depois que o fluxo que o alimenta se estabiliza.

Taxa de inadimplência em estoque nos relatórios de crédito

Medida O que mede Último dado
Inadimplência em estoque, Fed de Nova York Atraso de 90 dias ou mais nos relatórios de crédito, incluindo dívidas baixadas como prejuízo 12,8%, 1T26
Fluxo para inadimplência grave, Fed de Nova York Saldos que passam a ter 90 dias ou mais de atraso 6,97% no último ano
Inadimplência bancária, Conselho de Governadores do Fed Atraso de 30 dias ou mais nos livros dos credores, com baixas contábeis excluídas 2,92%, 1T26


As novas inadimplências aceleraram depois da pandemia e elevaram as duas séries juntas, estabilizando-se no início de 2024. O fluxo ficou estável. O estoque, não: quase todo o aumento registrado desde então veio de saldos classificados como gravemente inadimplentes, ou seja, contas que os credores já baixaram como prejuízo.


Uma baixa contábil (charge-off) sai dos livros do credor de uma só vez e desaparece das estatísticas bancárias, mas o tomador continua devendo, e os birôs de crédito seguem registrando a dívida. É por isso que a medida baseada em relatórios de crédito fica acima da medida bancária, mesmo cobrindo um estágio mais avançado de inadimplência. 


Entre 2004 e 2012, cerca de 40% das dívidas baixadas como prejuízo ainda constavam nos relatórios um ano depois. Em 2024, esse porcentual havia dobrado para 80%, sem uma mudança correspondente nas taxas de recuperação publicadas pelo Consumer Financial Protection Bureau (CFPB), o que aponta para uma mudança na prática de reporte, e não no desempenho das dívidas.


Ao excluir esses saldos, a série baseada em relatórios de crédito volta a ficar alinhada tanto com a taxa de fluxo quanto com os dados bancários.


O estresse de crédito parou de piorar, mas não desapareceu

Nada disso é um sinal de tranquilidade total, e o Fed de Nova York não apresentou os dados dessa forma. Cerca de 6,97% dos saldos de cartão entraram em inadimplência grave no último ano, ante 6,93% um ano antes, ritmo que o Fed classifica como elevado e continua monitorando. Mais de 23 milhões de americanos ainda carregam saldos de cartão baixados como prejuízo em seus relatórios de crédito, o que afeta o custo de crédito dessas pessoas independentemente de como o agregado é calculado.


Joelle Scally, assessora de política econômica do Fed de Nova York, afirmou que as taxas de inadimplência da maioria dos produtos de crédito se mantiveram estáveis nos últimos dois anos, enquanto as novas inadimplências em cartões de crédito e financiamentos de veículos seguem em níveis elevados.


A sequência é a seguinte: o estresse com cartões de crédito de fato piorou entre 2022 e 2024. Desde então, permanece elevado, mas estável, enquanto o indicador principal continuou subindo porque as dívidas antigas nunca saíram da base de dados. Os pesquisadores também observaram que muitas famílias operam com pouca folga financeira entre um pagamento e outro.


O mercado de trabalho agora é o fator decisivo para o crédito

O estresse com pagamentos é administrável enquanto a renda se mantém, e é exatamente nesse ponto que os dados vêm perdendo força.


A folha de pagamentos dos EUA caiu 23 mil vagas em julho, contra uma expectativa de criação de mais de 80 mil postos, e ante uma média mensal de criação de 34 mil vagas no ano anterior. 


Os dados de maio e junho foram revisados para baixo em 66 mil e 37 mil vagas, respectivamente, deixando esses dois meses 103 mil abaixo do que havia sido reportado inicialmente, com a média de três meses próxima de 20 mil. A taxa de desemprego recuou de 4,2% para 4,1%, embora a queda reflita uma força de trabalho menor, e não uma contratação mais forte. A taxa de participação caiu para 61,4%, e o crescimento anual dos salários desacelerou para 3,2%.


O consumo tem se sustentado. Os gastos reais do consumidor subiram 0,4% em junho, enquanto a taxa de poupança pessoal caiu para 2,7%, ante 3,0% em maio.


O que sinalizaria o retorno do estresse de crédito do consumidor

A abordagem do Fed aponta para um conjunto diferente de indicadores para acompanhar as condições daqui para frente.


  • Alta na inadimplência de fluxo. Uma subida a partir do patamar atual enfraqueceria a tese de que o estresse se estabilizou.

  • Aceleração das baixas contábeis bancárias. A taxa dos bancos comerciais foi de 4,01% no primeiro trimestre, e altas nesse indicador refletem perdas novas, não acumuladas.

  • Alta relevante do desemprego. A perda de vagas de emprego é o caminho mais direto entre um estresse elevado e um estresse em aceleração.

  • Gastos reais entrando em terreno negativo. O consumo tem absorvido a pressão até agora.

  • Aperto nos critérios de concessão de crédito. Limites e taxas de aprovação mais baixos reforçariam a desaceleração, em vez de amortecê-la.


Analistas costumam traçar essa sequência nessa ordem: o enfraquecimento do emprego reduz a renda, a queda da renda eleva as novas inadimplências, e a desaceleração dos gastos discricionários tende a aparecer primeiro nos resultados de emissores de cartão, credores ao consumidor e varejistas voltados ao consumidor, antes de se refletir na economia mais ampla.


Perguntas frequentes sobre a inadimplência de cartão de crédito nos EUA

Qual é a taxa atual de inadimplência dos cartões de crédito nos EUA?

Nos relatórios de crédito ao consumidor do Fed de Nova York, 12,8% dos saldos de cartão de crédito em aberto foram registrados com atraso de 90 dias ou mais no primeiro trimestre de 2026 (1T26), ante 7,6% no terceiro trimestre de 2022 (3T22). Os dados dos Call Reports bancários cobrem uma população diferente e excluem empréstimos já baixados como prejuízo.


Por que os números de inadimplência bancária e de relatórios de crédito são diferentes?

Dívidas baixadas como prejuízo saem dos livros dos credores e desaparecem das estatísticas bancárias, mas continuam nos relatórios de crédito enquanto o tomador ainda as deve. As duas séries capturam estágios diferentes da inadimplência.


As novas inadimplências de cartão de crédito ainda estão subindo?

O Fed de Nova York descreve o ritmo como elevado, mas praticamente estável desde 2024, com cerca de 6,97% dos saldos entrando em inadimplência pela primeira vez no último ano.


Quanto os americanos devem em cartão de crédito?

Os saldos somaram US$ 1,26 trilhões ao fim de junho de 2026, alta de US$ 21 bilhões no trimestre.


Por que os 12,8% se tornaram o número errado

O número de 12,8% não está errado. Ele é apenas a medida equivocada para uma pergunta específica. Como termômetro do volume de dívida em situação de estresse que os americanos carregam, o Fed de Nova York ainda considera esse indicador útil, e ele continua diretamente relevante para os mais de 23 milhões de pessoas cujos relatórios de crédito registram saldo de cartão baixado como prejuízo.


Já para a pergunta de se o estresse com pagamentos está acelerando agora, o Fed aponta a taxa de fluxo como a visão mais precisa do comportamento atual. Essa série e os dados bancários dizem, no momento, a mesma coisa: o estresse está elevado, mas parou de piorar. Se essa leitura vai se confirmar é algo que provavelmente aparecerá primeiro nos dados de folha de pagamento e de fluxo, e não em um novo aumento no estoque de inadimplência.

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