2013 Taper Tantrum: Como os rendimentos dos títulos do Tesouro afetaram os mercados emergentes
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2013 Taper Tantrum: Como os rendimentos dos títulos do Tesouro afetaram os mercados emergentes

Tradutor: Víctor Centeno

Publicado em: 2026-09-15   
Atualizado em: 2026-09-15

Um taper tantrum ocorre quando expectativas de redução do suporte do banco central provocam uma reprecificação rápida nos rendimentos dos títulos e nas condições financeiras. Em 2013, a mudança nas expectativas sobre as compras de ativos do Federal Reserve (Fed) elevou fortemente os rendimentos dos títulos do Tesouro americano de longo prazo e propagou os efeitos para moedas, títulos e ações de mercados emergentes. O episódio mostra por que a velocidade de um movimento nos Treasuries, a força do dólar, os spreads de crédito e as vulnerabilidades domésticas podem importar mais do que qualquer nível isolado de rendimento.

Taper tantrum de 2013: como os rendimentos dos Treasuries afetaram os mercados emergentes

Principais Pontos

  • O rendimento do Treasury americano de 10 anos subiu cerca de 137 pontos-base entre 2 de maio e 5 de setembro de 2013, segundo pesquisa do Federal Reserve.

  • Em 13 dos principais mercados emergentes, as moedas caíram em média cerca de 6% ante o dólar americano nos quatro meses seguintes à primeira menção de Ben Bernanke a um possível tapering.

  • As ações de mercados emergentes caíram cerca de 16% durante a venda inicial, enquanto os rendimentos dos títulos soberanos desses países subiram mais de 100 pontos-base.

  • Rendimentos mais altos dos Treasuries podem afetar os ativos de mercados emergentes por meio de retornos relativos, do dólar, dos fluxos de portfólio e dos spreads de crédito, mas os fundamentos domésticos influenciam a gravidade da reação.

  • Para os títulos de mercados emergentes, os rendimentos dos Treasuries são apenas parte da equação. Uma abertura simultânea nos spreads de crédito desses países pode amplificar o impacto nos preços.


O Que Aconteceu no Taper Tantrum de 2013?

O Federal Reserve não elevou os juros em maio de 2013. Os mercados, no entanto, começaram a antecipar que o programa de afrouxamento quantitativo (quantitative easing) do banco central seria reduzido no futuro.


Em 22 de maio, o então presidente do Fed, Ben Bernanke, disse ao Congresso que o ritmo das compras de ativos poderia ser reduzido caso as condições econômicas continuassem melhorando. Comunicados adicionais do Fed em junho reforçaram as expectativas de um eventual tapering. Na prática, o banco central só começou a reduzir as compras em dezembro.


Os mercados, porém, já haviam se movimentado meses antes. Pesquisa do Federal Reserve estima que o rendimento do Treasury de 10 anos subiu 137 pontos-base entre 2 de maio e 5 de setembro, enquanto um índice de 18 moedas de câmbio flutuante de mercados emergentes perdeu 8,8% ante o dólar no mesmo período.


A venda generalizada não ficou restrita às moedas. Dados do Banco de Compensações Internacionais (BIS) mostram que as ações de mercados emergentes caíram cerca de 16% antes de se estabilizarem em julho, enquanto os rendimentos dos títulos soberanos subiram mais de 100 pontos-base. Os fluxos de portfólio para fundos de mercados emergentes também se reverteram abruptamente.


O episódio demonstrou como as expectativas sobre a futura política monetária americana podem apertar as condições financeiras globais bem antes de o Fed alterar sua taxa básica de juros.


Como os Rendimentos Mais Altos dos Treasuries Afetam os Mercados Emergentes?

Os ativos americanos ficam mais competitivos

Quando os rendimentos dos Treasuries sobem, os investidores passam a obter um retorno maior em uma dívida do governo americano de risco comparativamente baixo. Isso reduz parte da vantagem relativa de rendimento oferecida por títulos e moedas de mercados emergentes.


Como resultado, as posições de carry trade podem se tornar menos atrativas. Antes do tantrum de 2013, uma estratégia simples de manter moedas de mercados emergentes contra o dólar havia gerado um retorno acumulado de cerca de 28% entre o fim de 2008 e abril de 2013, segundo pesquisa do Fed. A mudança abrupta nos juros americanos deixou essas posições vulneráveis a um desmonte.


Os fluxos de capital podem se reverter

A realocação de portfólio em direção a ativos em dólar pode pressionar moedas e títulos de mercados emergentes. Pesquisa do Fed de Dallas constatou que um grupo de 13 das principais moedas emergentes, ponderado pelo PIB, caiu cerca de 6% ante o dólar nos quatro meses após o depoimento de Bernanke ao Congresso em maio de 2013.


A reação não foi uniforme. Países com maiores necessidades de financiamento externo, reservas menores e mais dívida em moeda estrangeira, em geral, mostraram-se mais sensíveis.


Pesquisa do BIS constatou que fatores específicos de cada mercado emergente explicaram cerca de 70% da variação explicada na desaceleração dos empréstimos bancários transfronteiriços durante o tantrum. O saldo em conta corrente e a participação da dívida denominada em dólares americanos foram particularmente relevantes.


Os spreads de crédito podem se abrir

Para a dívida de mercados emergentes denominada em dólar, uma relação simplificada é:

Rendimento do título emergente ≈ rendimento do Treasury americano + spread de crédito do mercado emergente


Isso cria duas fontes possíveis de pressão.


Se os rendimentos dos Treasuries sobem e os spreads de mercados emergentes permanecem estáveis, os rendimentos dos títulos ainda assim aumentam. Se os rendimentos dos Treasuries sobem e, ao mesmo tempo, os investidores passam a exigir um prêmio de risco maior dos tomadores emergentes, o aumento total pode ser consideravelmente maior.


Como o Mesmo Choque nos Treasuries Chega a Diferentes Ativos de Mercados Emergentes

Moedas, títulos e ações podem reagir rapidamente a mudanças nos juros americanos. O que muda é o canal pelo qual a pressão chega até cada ativo.

Instrumento Exposição Principal canal do choque de juros
EEM / IEMG / VWO Ações de mercados emergentes Taxas de desconto, câmbio, lucros e fluxos de capital
EMB Dívida soberana emergente em dólar Rendimentos dos Treasuries e spreads de crédito
USDZAR / USDTRY Moedas de mercados emergentes Demanda por dólar, carry trade e fluxos de capital

Para ETFs de ações como EEM, IEMG e VWO, juros americanos mais altos podem elevar as taxas de desconto e influenciar os fluxos estrangeiros, mas os lucros das empresas, as moedas, a composição setorial e as condições domésticas também afetam o desempenho.


O EMB tem uma relação mais direta com o mercado de títulos, pois detém dívida soberana e quase soberana de mercados emergentes denominada em dólar.


Pares de câmbio como USDZAR e USDTRY oferecem uma visão mais clara do canal cambial, embora a inflação local, a política monetária, as condições fiscais e o risco político possam facilmente superar o efeito dos Treasuries.


Os Mercados Emergentes Estão Mais Preparados do Que em 2013?

Diversas economias emergentes fortaleceram suas reservas, reduziram parte dos desequilíbrios externos e desenvolveram mercados de capitais domésticos mais profundos após crises anteriores. Mas o financiamento global via portfólio também cresceu consideravelmente.


O Fundo Monetário Internacional (FMI) estimou, em abril de 2026, que os fluxos acumulados de portfólio para mercados emergentes desde a crise financeira global haviam chegado a cerca de US$ 4 trilhões. O passivo de dívida em portfólio equivalia, em média, a cerca de 15% do PIB desses países, ante aproximadamente 9% em 2006.


Investidores não bancários hoje têm papel maior. Pesquisa do FMI constata que os fundos de investimento são relativamente sensíveis a mudanças no apetite global por risco, com fundos mútuos passivos e ETFs particularmente reativos dentro do setor. Países que dependem fortemente dessas fontes de capital estrangeiro podem, assim, enfrentar condições de financiamento mais restritivas em períodos de estresse global.


A resiliência ainda varia muito de país para país. Dívida elevada, reservas limitadas, necessidades de financiamento externo e marcos institucionais frágeis podem aumentar a sensibilidade a um mesmo choque global de juros.


Quanto um Choque de Juros Pode Afetar o EMB?

A duration de um título oferece uma forma útil de estimar a sensibilidade a juros.


Uma aproximação simplificada é:

Variação de preço ≈ −Duration × variação no rendimento


Em 10 de setembro de 2026, o EMB tinha duration efetiva de 6,42 anos e spread ajustado por opção (option-adjusted spread) de cerca de 166 pontos-base.


Se o rendimento da carteira do EMB subisse 100 pontos-base, a estimativa de primeira ordem pela duration seria:

−6,42 × 1% ≈ −6,4%


Essa é uma aproximação que não considera a renda de cupom, a convexidade e outros efeitos da carteira. É fundamental notar que um aumento de 100 pontos-base nos Treasuries não produz automaticamente um aumento de 100 pontos-base no rendimento do EMB.


Considere dois exemplos simplificados:

  • Os rendimentos dos Treasuries sobem 50 pontos-base, enquanto os spreads de mercados emergentes permanecem estáveis: o rendimento do título emergente relevante poderia subir cerca de 50 pontos-base.

  • Os rendimentos dos Treasuries sobem 50 pontos-base, e os spreads de mercados emergentes se abrem em 50 pontos-base: o aumento total poderia se aproximar de 100 pontos-base.


O segundo caso mostra por que a dívida de mercados emergentes pode sofrer mais do que o movimento inicial dos Treasuries quando a aversão a risco aumenta ao mesmo tempo.


ETFs de ações como EEM, IEMG e VWO não têm duration de renda fixa. Nesses casos, a sensibilidade é transmitida por meio de valuations, moedas, lucros e fluxos de portfólio.


Por Que Não Existe um Rendimento Mágico do Treasury para Mercados Emergentes

A experiência de 2013 mostra por que focar em um nível específico, como 4%, 5% ou 6%, pode induzir a erro. O Treasury de 10 anos nunca chegou perto de 5% durante o taper tantrum. A disrupção veio de uma reprecificação rápida e inesperada a partir de níveis muito mais baixos.


Um rendimento alto do Treasury pode conviver com mercados emergentes relativamente estáveis, desde que esse nível já esteja refletido nos preços dos ativos e os spreads emergentes permaneçam contidos.


Um estresse mais sério costuma envolver vários sinais se movendo em conjunto:

  • Rendimentos dos Treasuries subindo rapidamente;

  • dólar americano mais forte;

  • spreads soberanos emergentes mais abertos;

  • saídas persistentes de portfólio;

  • moedas emergentes mais fracas;

  • piora das condições fiscais ou inflacionárias domésticas.


Juntos, esses sinais fornecem mais informação do que o rendimento do Treasury isoladamente.


Perguntas Frequentes

Um taper tantrum é o mesmo que uma alta de juros?

Não. O episódio de 2013 começou quando os mercados anteciparam uma redução nas compras de ativos do Federal Reserve. A taxa básica de juros americana (fed funds rate) permaneceu próxima de zero, e o próprio tapering só teve início em dezembro de 2013.


Por que rendimentos mais altos dos Treasuries prejudicam os mercados emergentes?

Juros americanos mais altos podem reduzir o apelo relativo dos ativos de mercados emergentes e estimular a realocação de portfólio para ativos em dólar. Os custos de financiamento desses países podem subir ainda mais se os spreads de crédito também se abrirem ao mesmo tempo.


Um dólar mais forte sempre prejudica os mercados emergentes?

Não. A sensibilidade depende de fatores como dívida em moeda estrangeira, saldo em conta corrente, reservas, exposição a commodities e política monetária doméstica.


Por que o EMB pode cair quando os rendimentos dos Treasuries sobem?

O EMB detém dívida de mercados emergentes em dólar. Os rendimentos exigidos refletem tanto as taxas dos Treasuries americanos quanto um spread de crédito adicional; por isso, rendimentos mais altos dos Treasuries podem reduzir os preços dos títulos mesmo que o risco de crédito percebido dos mercados emergentes permaneça inalterado.


O Que 2013 Ainda Ensina Sobre o Risco dos Mercados Emergentes

O taper tantrum mostrou que a reprecificação dos Treasuries se torna mais disruptiva quando altera os retornos relativos, empurra capital para o dólar e expõe fragilidades em economias específicas.


Para os mercados emergentes, o sinal de alerta relevante, portanto, não é um rendimento específico dos Treasuries americanos, mas a combinação entre a alta dos rendimentos, a força do dólar, a abertura dos spreads de crédito e a piora dos fluxos de capital. Quando essas forças se reforçam mutuamente, um choque nos juros americanos pode se transformar em um evento de estresse muito mais amplo para os mercados emergentes.


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