Publicado em: 2026-04-30

Após a escalada da guerra em 28 de fevereiro, o Real brasileiro tornou-se uma das moedas mais observadas na América Latina. Não foi o principal vencedor todos os dias, já que Colômbia, Peru e México também apresentaram fortes valorizações. Mas o Brasil continuou a ser o foco das atenções por estar situado na interseção de preços mais altos do petróleo, interrupções no comércio e taxas de juros ainda elevadas.
A explicação óbvia era que o Brasil é um grande exportador de petróleo bruto, então preços mais altos do petróleo deveriam melhorar sua posição externa e sustentar a moeda. Isso era verdade, mas representava apenas parte da história. A mudança mais interessante foi que a guerra alterou quem podia abastecer o mercado, e não apenas o preço do que era comercializado.
O Brasil não estava apenas se beneficiando da alta dos preços do petróleo bruto, mas também se tornando um fornecedor substituto. Em março, a China elevou as compras de petróleo bruto brasileiro para um recorde de 1,6 milhão de barris por dia. Isso impulsionou as exportações totais de petróleo bruto do Brasil para 2,5 milhões de barris por dia, o segundo maior volume mensal já registrado. A Índia também se tornou a segunda maior compradora de petróleo do Brasil. Isso deu ao Real uma valorização ainda maior do que a ideia comum de que os exportadores de commodities simplesmente se valorizam quando o preço do petróleo sobe.
O Brasil também contava com o apoio da taxa de juros. Em 18 de março, o Banco Central iniciou um afrouxamento monetário cauteloso, reduzindo sua taxa básica de juros em 25 pontos-base, para 14,75%, após mantê-la em 15% por cinco reuniões. A Reuters informou que as projeções de inflação para 2026 foram revisadas para cima após o choque do petróleo, tornando menos certo o caminho para novos cortes. Assim, o Real foi sustentado por uma demanda de exportações mais forte, uma clara ligação com o petróleo e uma das taxas de juros mais altas da região.
Essa combinação ajuda a explicar por que o Brasil se manteve relevante mesmo quando não liderava todas as sessões. Em 6 de abril, a Reuters noticiou que o peso mexicano liderou a recuperação regional, o Solrose peruano subiu 0,9% e o real brasileiro ganhou apenas 0,2%, enquanto os mercados avaliavam o risco de escalada e as esperanças de um cessar-fogo. O Brasil não dominava o placar. Simplesmente se adaptava à estrutura do choque.
O aspecto mais revelador da história do Brasil foi a tensão interna. Uma moeda mais forte pode dar a impressão de solidez a um país no exterior, mesmo quando famílias e empresas enfrentam incertezas. Em março, o governo brasileiro suspendeu o imposto federal sobre o diesel, impôs um imposto de 12% sobre as exportações de petróleo bruto e adicionou uma taxa de 50% sobre as exportações de diesel para amenizar o impacto da alta dos preços dos combustíveis. O presidente Lula afirmou que os preços do petróleo estavam "saindo do controle", enquanto a Reuters observou que o setor agrícola estava sob pressão, já que o diesel é essencial para a colheita de soja e o plantio de milho.
Essa tensão ficou mais evidente no setor de combustíveis refinados. A Reuters noticiou em 8 de abril que as importações brasileiras de diesel caíram 25% em março, para 1,05 bilhão de litros, embora o país ainda dependa de importações para cerca de um quarto de suas necessidades de diesel. A participação do diesel americano nessas importações caiu drasticamente, provavelmente porque as cargas foram redirecionadas para mercados mais lucrativos, como a Ásia. Assim, o Brasil se beneficiava de exportações de petróleo bruto mais robustas, ao mesmo tempo em que enfrentava dificuldades para garantir o abastecimento de combustível no mercado interno.
A resposta interna também se tornou mais difícil de controlar. Em 9 de abril, a Reuters noticiou que o Brasil planejava recorrer de uma decisão judicial que suspendeu a taxa de exportação de petróleo bruto de 12% para algumas empresas internacionais. A Petrobras não estava incluída nessa isenção. Isso demonstrava que o governo estava tentando usar a receita inesperada do petróleo para proteger os consumidores, mas até mesmo essa resposta estava se tornando mais contestada.
A Colômbia é a melhor comparação porque impede que o artigo se concentre demais no Brasil. A Colômbia também tinha a ligação com o petróleo e, por vezes, parecia mais forte. Mas sua resposta política foi mais brusca e ruidosa. Em 31 de março, o banco central elevou as taxas de juros em 100 pontos-base, para 11,25%, e o governo retirou-se do conselho do banco central em protesto. A Reuters noticiou que analistas viram o conflito como um potencial golpe na credibilidade.
Foi aí que o Brasil começou a mostrar sinais de maior estabilidade, ainda que nem sempre de maior força. O Brasil enfrentava pressões inflacionárias e escassez de combustíveis, enquanto a situação cambial da Colômbia apresentava uma disputa mais visível entre o governo e o Banco Central. Isso torna a comparação útil porque desloca a discussão do desempenho bruto para a forma como esse desempenho foi sustentado.
O Chile mostra o outro lado da divisão regional. Sua economia também é fortemente dependente de commodities, mas isso não lhe ofereceu a mesma proteção contra esse choque. Em 24 de março, o Chile era um dos maiores importadores de petróleo da América Latina, pois não possui produção interna significativa. Isso o tornou mais vulnerável quando o preço do Brent subiu de cerca de US$ 70 antes do conflito para cerca de US$ 101 no final de março.
Em 7 de abril, o peso chileno liderava as perdas na região, enquanto os mercados se preparavam para um ultimato dos EUA ao Irã e o petróleo disparava acima de US$ 150 o barril. O ING fez uma observação semelhante em março, argumentando que o Brasil tinha maior potencial de recuperação caso a crise se amenizasse, enquanto o Chile parecia mais vulnerável, especialmente se o cobre também se desvalorizasse. Essa é uma distinção mais precisa. "Moeda de commodity" é um termo muito amplo para explicar o que aconteceu. O que importava era a exposição à commodity certa durante esse choque específico.
O Peru e o México são importantes porque impedem que a história regional se torne simplista demais. O Sol peruano nos lembra que a resiliência cambial não precisa vir do petróleo. O Sol foi uma das moedas mais estáveis da América Latina porque o Peru acumulou uma grande quantidade de dólares por meio de superávits comerciais e reservas cambiais, cerca de US$ 83 bilhões, ou aproximadamente 30% do PIB. Isso proporcionou ao Peru um tipo diferente de suporte, menos atrelado à demanda por commodities em tempos de guerra e mais a reservas externas.
O papel do México é diferente. Isso demonstra a rapidez com que a liderança pode mudar de um dia para o outro. A Reuters noticiou em 6 de abril que o peso liderou a valorização regional, à medida que o dólar se desvalorizava e os mercados ponderavam a escalada do conflito com as possíveis chances de cessar-fogo. A mesma reportagem indicava que o sol peruano se valorizou mais do que o real brasileiro naquele dia. Portanto, a região nunca seguiu uma ordem clara de força, do mais forte ao mais fraco. Foi um conjunto dinâmico de reações moldadas pelas diferentes forças locais.
O Brasil também se mostra mais interessante quando comparado com a Ásia do que com seus pares latino-americanos. A Ásia, que importa cerca de 60% do seu petróleo bruto do Oriente Médio, foi a região mais exposta ao choque energético. Países como a Índia e as Filipinas já haviam intervido nos mercados cambiais para sustentar suas taxas de câmbio. O Brent havia subido 55% desde o início do conflito, em 28 de fevereiro.
Esse contraste mais amplo ajuda a explicar por que o Brasil atraiu tanta atenção. Não precisava ser a moeda mais forte da América Latina para parecer bem posicionado em um mundo onde os grandes importadores líquidos estavam sob pressão muito maior. A comparação torna a história do Brasil mais fácil de entender.
O desfecho também precisa refletir a situação atual do mercado. A breve narrativa do cessar-fogo e do alívio já não é suficiente. Foi noticiado em 14 de abril que a Agência Internacional de Energia considera agora a guerra a maior interrupção no fornecimento de petróleo da história, com uma perda de 1,5 milhão de barris por dia este ano. A agência também revisou sua previsão de demanda para 2026, passando de um crescimento esperado para uma pequena queda.
Ao mesmo tempo, o mercado já não está a reagir a isto como um pânico generalizado. O dólar disparou a 12 de abril, após o fracasso das negociações entre os EUA e o Irão, com os investidores a regressarem em busca de ativos seguros. A 15 de abril, o dólar tinha praticamente perdido todos esses ganhos, com o regresso das esperanças de novas negociações. O Brent recuou para cerca de 94,50 dólares por barril e o apetite pelo risco melhorou nos mercados em geral.
A lição nunca foi simplesmente "petróleo em alta, Brasil em alta". Foram os choques da guerra que recompensaram os países que conseguiam vender o que o mundo repentinamente precisava, ao mesmo tempo que expunham o que esses mesmos países ainda precisavam comprar. A partir de agora, vale a pena observar se o preço do petróleo se manterá abaixo dos picos do pânico, se o aumento das exportações brasileiras se sustentará com a melhora da diplomacia e se a escassez de combustível no mercado interno começará a importar mais do que o lucro inesperado com a venda de petróleo bruto no exterior.