Publicado em: 2026-09-10
Atualizado em: 2026-09-10
O Banco Central do Brasil (BC) deve vender até US$ 1 bilhão em dólares no mercado à vista e ofertar até 20 mil contratos de swap cambial reverso, com valor nocional de cerca de US$ 1 bilhão, em dois leilões simultâneos nesta quinta-feira, 10 de setembro, entre 9h20 e 9h25 (horário de Brasília).

As duas pontas do leilão seguem direções opostas. O leilão à vista entrega dólares físicos a dealers de câmbio credenciados. Já o swap reverso deixa o Banco Central com exposição cambial por meio de um derivativo registrado na B3.
O comunicado oficial vincula as duas operações. Os contratos de swap aceitos não podem superar o valor nocional dos dólares efetivamente vendidos no leilão à vista, de modo que a estrutura injeta liquidez em dólares no mercado à vista e, ao mesmo tempo, adiciona uma posição em derivativos que compensa e limita a variação líquida na exposição do BC ao câmbio (USD/BRL).
O BC anunciou os dois leilões em 8 de setembro, por meio de dois comunicados emitidos pelo Departamento de Reservas Internacionais (Depin). O Comunicado nº 45.893 rege a ponta à vista, e o Comunicado nº 45.894, o swap.
O leilão à vista aceitará no máximo US$ 1,0 bilhão e tem como referência a Ptax, a taxa de câmbio de referência diária do BC. Cada dealer de câmbio pode apresentar até três propostas, informando um volume e um diferencial de até seis casas decimais, a ser somado ou subtraído da taxa de venda do USD/BRL no boletim de fechamento da Ptax do dia do leilão.
A participação dos dealers é facultativa, e o comunicado prevê que o BC pode aceitar apenas parte do volume ofertado.
A ponta de swap oferece até 20 mil contratos SCS (swap cambial reverso), cada um com valor nocional de US$ 50 mil. O BC assume a posição vendedora, e as instituições financeiras, a posição compradora. Os contratos têm início em 11 de setembro e vencimento em 1º de outubro de 2026, prazo de cerca de três semanas.
As instituições podem enviar até cinco propostas, cotando os contratos em lotes de 100 e uma taxa de cupom cambial em base linear de 360 dias. A alocação segue a regra de preço único, com uma única taxa de corte aplicada a todas as propostas vencedoras.
USD/BRL fechou a R$ 5,1114 nesta quarta-feira (9), alta de 0,44%, após encerrar a terça-feira cotado a R$ 5,0892, seu menor fechamento desde 7 de agosto. A moeda americana acumula queda de cerca de 1,35% em setembro e de 6,88% no ano. Reservas internacionais somavam US$ 369,7 bilhões em julho, e a Selic está em 14%.

O BC deve divulgar os resultados das duas pontas após concluir a apuração dos leilões.
A ponta à vista representa uma transferência efetiva de moeda: os dólares saem das reservas em moeda estrangeira do Banco Central e passam para os balanços dos dealers, que podem repassá-los a importadores, empresas e outros clientes que precisam da entrega física da moeda.
Já a ponta de swap não envolve troca de principal. No contrato SCS, o BC recebe a variação cambial mais o cupom cambial e paga a ponta atrelada à Selic. Essa posição equivale, do ponto de vista econômico, a comprar dólares no mercado futuro.
O elo entre as duas pontas é o teto de alocação. Se os dealers absorverem apenas US$ 600 milhões em dólares à vista, a alocação de swap fica limitada ao equivalente a US$ 600 milhões em valor nocional. A alocação plena das duas pontas resultaria em cerca de US$ 2 bilhões em nocional bruto, dos quais apenas o US$ 1 bilhão da ponta à vista efetivamente coloca dólares físicos no mercado.
O restante é nocional em derivativos, liquidado financeiramente em reais, sem entrega física de dólares. A compensação entre as duas pontas é aproximada, não exata: a venda à vista reduz os ativos em moeda estrangeira, enquanto o swap reverso carrega exposição a juros, marcação diária a mercado e vencimento definido.
A demanda por dólares físicos e a demanda por exposição cambial são coisas distintas. O Brasil tem um mercado de derivativos cambiais doméstico grande e muito líquido, enquanto o leilão à vista é realizado com dealers credenciados, num mercado de caixa doméstico menor que o de derivativos.
As taxas de cupom cambial de curto prazo funcionam como um termômetro das condições de liquidez em dólares no Brasil, e a própria ponta de swap é cotada em termos de cupom cambial.
A estrutura combinada permite ao BC oferecer liquidez em dólares à vista e, ao mesmo tempo, compensar essa saída com exposição no mercado de derivativos. Uma venda isolada de reservas também injetaria caixa no mercado, mas deixaria o Banco Central com menos dólares e uma posição comprada em moeda estrangeira menor.
O Brasil opera em regime de câmbio flutuante, sem piso ou teto predeterminado. Segundo o BC, suas intervenções cambiais visam manter o funcionamento regular do mercado, evitar restrições de liquidez e oferecer mecanismos de proteção cambial (hedge).
Uma compensação no agregado não significa neutralidade em cada mercado individualmente. Com alocação plena, a ponta à vista pode adicionar até US$ 1 bilhão em oferta de dólares no mercado de caixa, enquanto a ponta de swap atua na curva futura, onde pode firmar preços e alterar o custo de proteção cambial. Os mercados à vista e futuro estão ligados por arbitragem via cupom cambial, de modo que a pressão em um deles se transmite ao outro.
O cenário mais amplo também mexeu com o câmbio nesta semana. O real se valorizou em 8 de setembro, mas devolveu parte do ganho em 9 de setembro, com o petróleo Brent fechando acima de US$ 101 e a alta dos rendimentos dos Treasuries pressionando ativos de risco.
Economistas brasileiros inclinavam-se a projetar um corte de 25 pontos-base na Selic na reunião do Copom em 16 de setembro, enquanto o mercado americano atribuía uma probabilidade de cerca de 60% a uma alta de juros pelo Fed.
O BC realizou a mesma combinação de leilões em 27 de agosto. As duas pontas foram totalmente alocadas: 12 propostas à vista foram aceitas com diferencial de corte de -0,000400, e duas propostas de swap foram aceitas a 4,5610, com vencimento em 1º de outubro.
Uma operação anterior, em 26 de junho, também teve alocação total, com quatro propostas à vista a um diferencial de corte de -0,000300 e seis propostas de swap a 4,8790. A alocação não é automática: em 24 de abril, o BC ofertou o mesmo volume nas duas pontas e não aceitou nenhuma proposta em nenhuma delas.
O leilão de quinta-feira é o mais recente de uma série de operações combinadas realizadas ao longo de 2026.
O principal número a observar é a taxa de alocação, o volume aceito dividido pelo US$ 1 bilhão ofertado, multiplicado por 100. Em agosto, o resultado foi de 100%. Uma alocação plena indicaria que as propostas apresentadas, a preços aceitáveis para o BC, foram suficientes para absorver toda a oferta.
Já uma alocação parcial exigiria analisar os volumes apresentados em conjunto com o corte divulgado antes de qualquer conclusão sobre a demanda por liquidez, já que o BC pode rejeitar propostas por preço.
O diferencial é o detalhe mais fino da operação. Ele passou de -0,000300 em junho para -0,000400 em agosto, uma diferença de R$ 0,0001 por dólar, ou R$ 100 mil em uma alocação de US$ 1 bilhão. Vale registrar o novo corte em relação a esses dois níveis apenas como referência, e não como um veredito sobre a urgência dos dealers, já que as condições de Ptax, funding e liquidez variam de um leilão para outro.
A taxa de corte do swap deve ser comparada com a curva de cupom cambial vigente no momento, e não isoladamente com os 4,5610 de agosto, dados os diferentes prazos remanescentes e as diferentes condições de câmbio à vista, Selic e liquidez envolvidas.
Os resultados a observar são o volume aceito em cada ponta, os níveis de corte, a reação do USD/BRL ao longo do pregão e o comportamento do cupom cambial até o vencimento em 1º de outubro.