USD/BRL próximo de R$ 5,09: o carry trade brasileiro conseguirá absorver a nova tarifa de 25% dos EUA?
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USD/BRL próximo de R$ 5,09: o carry trade brasileiro conseguirá absorver a nova tarifa de 25% dos EUA?

Publicado em: 2026-07-16   
Atualizado em: 2026-07-16

Em 16 de julho, o USD/BRL estava cotado próximo a R$ 5,09, o que deixou o real brasileiro cerca de 8% mais forte em relação ao dólar do que um ano antes. A partir de 22 de julho, os Estados Unidos imporão uma tarifa adicional de 25% sobre as importações brasileiras não isentas, mas uma lista generosa de isenções de produtos e a taxa básica de juros do Brasil em 14,25% provavelmente limitarão o impacto imediato sobre a moeda.

What Happened to USDBRL

A questão mais importante não é o impacto da notícia sobre as tarifas no primeiro dia. É se a disputa comercial, combinada com a incerteza eleitoral, as preocupações fiscais ou cortes mais rápidos nas taxas de juros, começará a desfazer o carry trade que manteve o real forte.


Principais conclusões

  • Os Estados Unidos imporão uma tarifa adicional de 25% sobre as importações brasileiras não isentas a partir de 22 de julho.

  • Café, carne bovina, suco de laranja, alguns produtos energéticos e certos produtos aeroespaciais estão isentos.

  • A taxa Selic de 14,25% do Brasil continua sendo o principal fator de sustentação do real.

  • Uma tarifa separada de 12,5% para trabalho forçado foi proposta, mas ainda não foi finalizada.

  • É muito provável que a tarifa provoque uma forte oscilação no par USD/BRL se começar a afetar os fluxos de capital, as expectativas de inflação ou as perspectivas para a taxa de juros no Brasil, embora um movimento global de aversão ao risco possa enfraquecer o real de forma independente.


O que acabou de mudar?

O Representante Comercial dos EUA concluiu uma investigação da Seção 301 sobre as práticas comerciais brasileiras e anunciou uma tarifa adicional de 25% sobre os produtos afetados, com vigência a partir das 00h01 (horário do leste dos EUA) do dia 22 de julho.


Fundamentalmente, a tarifa não recai uniformemente sobre a base de exportações do Brasil. Café, carne bovina, laranjas e suco de laranja, produtos energéticos selecionados e certas peças aeroespaciais estão isentos. A tarifa aplica-se a bens fora dessa lista de isenções, incluindo máquinas e etanol combustível. ( Classificar os setores mais afetados exigiria o cruzamento dos valores de importação dos EUA com os códigos aduaneiros afetados, algo que o aviso do USTR não faz. )


Essas exceções são muito importantes para o real, porque várias das exportações brasileiras mais reconhecidas internacionalmente evitarão completamente a nova tarifa, atenuando o impacto imediato na receita de exportação e na balança comercial.


Vale a pena notar um detalhe técnico: a tarifa se acumula sobre outros direitos aplicáveis, e a sobretaxa global temporária de 10% sobre importações, introduzida pela Seção 122, está programada para vigorar até 24 de julho, deixando um curto período em que as duas medidas se sobrepõem.


Outro risco tarifário que ainda não foi finalizado

Logo atrás do número principal, encontra-se uma segunda ameaça, ainda não confirmada. Uma investigação independente dos EUA sobre a aplicação de práticas de trabalho forçado resultou em uma proposta de tarifa adicional de 12,5% que abrangeria diversas economias, incluindo o Brasil. Até 16 de julho, essa medida permanecia apenas como uma proposta, e não como uma tarifa em vigor.


Se fosse adotada em sua forma atual e aplicada além dos 25%, a alíquota efetiva sobre os bens não isentos afetados chegaria a 37,5%. Esse valor pertence à coluna de risco, não à coluna da política atual, uma distinção importante para o USD/BRL, porque, embora os mercados possam precificar alguma probabilidade de uma alíquota mais alta, o real ainda não enfrenta uma barreira confirmada de 37,5%.


Como a disputa chegou a 25%

A tarifa mais recente é apenas a etapa mais recente de uma disputa que já percorreu diversas fases legais. Em julho de 2025, Washington impôs uma tarifa adicional de 40% específica para o Brasil que, combinada com uma medida já existente de 10%, elevou a alíquota total sobre os produtos afetados para 50%.


Essa estrutura não sobreviveu: em 20 de fevereiro de 2026, a Suprema Corte dos EUA decidiu que a legislação de poderes de emergência que sustentava muitas das tarifas, na verdade, não as autorizava.


Quatro dias depois, em 24 de fevereiro, Washington introduziu uma nova sobretaxa global temporária de 10% sobre as importações, nos termos da Seção 122. Essa foi uma medida nova e abrangente, e não uma reinstalação da tarifa anterior específica para o Brasil. A via da Seção 301, então, produziu o resultado atual, anunciado em 15 de julho e em vigor desde 22 de julho: um adicional de 25% sobre os produtos brasileiros afetados.


À primeira vista, 25% é mais brando do que o total anterior de 50%, e as novas isenções reduzem ainda mais o impacto direto sobre diversas exportações importantes. No entanto, os dois regimes não são diretamente comparáveis, pois se baseiam em diferentes fundamentos legais, abrangem produtos distintos e interagem de maneira diferente com outras tarifas. Portanto, a nova tarifa parece menos severa do que a anterior em termos gerais, sem representar uma redução completa.


Por que o real brasileiro tem se valorizado tanto?

O principal fator por trás da resiliência do real é a vantagem da taxa de juros brasileira. O Banco Central reduziu a taxa Selic de 15% para 14,25% por meio de três cortes consecutivos de 0,25 ponto percentual, mas mesmo após essa flexibilização, a taxa permanece bem acima da meta de 3,50% a 3,75% estabelecida pelo Federal Reserve.


Com a inflação brasileira em 4,64% em junho, a taxa básica de juros real (ajustada pela inflação) gira em torno de 9%, aproximadamente 9,6 pontos percentuais em uma simples subtração, ou cerca de 9,2% considerando os juros compostos. Substituindo a inflação esperada, em torno de 5,2%, a taxa fica mais próxima de 8,5% a 9%.

Brazilian Inflation Rate

Isso não se traduz em um retorno real garantido, uma vez que os preços dos títulos, os impostos, os custos de hedge e as flutuações cambiais influenciam o resultado final. Contudo, explica por que a renda fixa brasileira continua atraente em comparação com mercados de menor rendimento e por que a estratégia de carry trade continua funcionando: os investidores podem tomar empréstimos em moedas com taxas de juros mais baixas e manter ativos brasileiros de maior rendimento, e esses fluxos de entrada geram uma demanda constante pelo real.


A desvalorização do dólar americano contribuiu para esse efeito, uma vez que o arrefecimento da inflação nos EUA reduziu as expectativas de um maior aperto monetário por parte do Fed e erodiu parte da vantagem da taxa de juros do dólar.


Por que a tarifa não quebrou a realidade?

Uma tarifa não enfraquece automaticamente uma moeda. Seu efeito depende do volume de comércio efetivamente abrangido, se os exportadores perdem participação de mercado, como o país afetado reage e se a disputa altera as expectativas de inflação ou de taxas de juros.


No caso do Brasil, as isenções limitam o choque comercial imediato, enquanto a vantagem cambial doméstica proporciona uma proteção excepcionalmente sólida, razão pela qual o USD/BRL se manteve próximo a R$ 5,09 em vez de disparar após o anúncio.


Por ora, o mercado está dando mais peso ao rendimento brasileiro do que ao custo direto da tarifa. Esse equilíbrio, contudo, pode mudar rapidamente se as tarifas começarem a reduzir a receita de exportação, provocarem retaliações ou afetarem a demanda por ativos brasileiros.


O que poderia enfraquecer o real

O risco mais evidente é o de uma ampliação das tarifas. A proposta de taxa de 12,5% sobre o trabalho forçado, a retaliação do Brasil ou novas restrições dos EUA poderiam aumentar o custo econômico, e os mercados cambiais provavelmente reagiriam antes mesmo que qualquer impacto se refletisse nos dados comerciais.


A retaliação traz suas próprias complicações: medidas direcionadas a produtos americanos podem proteger setores específicos da indústria brasileira, mas também podem elevar os preços internos e prejudicar a confiança, com a reação da moeda dependendo de como os mercados interpretarem a resposta: como controlada ou como o início de um conflito mais amplo.


A política é o segundo ponto de pressão. A eleição presidencial brasileira começa com o primeiro turno em 4 de outubro, e campanhas desse tipo tendem a trazer promessas sobre gastos, impostos e apoio às famílias. Se os investidores concluírem que o próximo governo tolerará déficits maiores ou afrouxará o regime fiscal, eles exigirão um prêmio de risco mais alto, e altas taxas de juros de títulos que refletem preocupações com a dívida são muito menos favoráveis a uma moeda do que altas taxas de juros que simplesmente atraem capital.


O panorama fiscal subjacente reforça esse ponto: o setor público consolidado registrou um déficit primário de R$ 56,1 bilhões em maio, ante R$ 33,7 bilhões no ano anterior, com o déficit acumulado em doze meses atingindo R$ 149 bilhões, ou cerca de 1,14% do PIB.


Esses números não sinalizam uma crise imediata, mas explicam por que as expectativas de gastos e dívida continuarão em foco à medida que outubro se aproxima, e por que uma deterioração sustentada poderia enfraquecer o real mesmo com a taxa Selic em alta.


A estratégia de carry trade também depende da manutenção de um amplo diferencial de juros no Brasil, o que torna o ritmo de afrouxamento monetário um risco em si. O Copom não declarou o fim do seu ciclo; suas decisões futuras estão atreladas à inflação, à atividade econômica e às expectativas. A última pesquisa Focus coloca a projeção mediana da taxa Selic para o final do ano em 14,00%, apenas marginalmente abaixo dos 14,25% atuais. Portanto, uma queda mais acentuada reduziria o diferencial em relação aos EUA e tornaria as posições de carry trade no Brasil menos atrativas.


Por fim, o real continua sendo uma moeda de mercado emergente, e uma liquidação global de ações, um choque geopolítico ou uma corrida repentina por dólares podem enfraquecê-lo independentemente dos fundamentos domésticos; as operações de carry trade ficam especialmente vulneráveis quando a volatilidade aumenta e as posições alavancadas são liquidadas às pressas.


Cenários a serem observados para o USD/BRL

USDBRL

Próximo a R$ 5,09, o USD/BRL encontra-se na metade inferior de sua recente variação, o que sugere que o mercado atualmente confia mais na vantagem cambial do Brasil do que teme a tarifa. As faixas abaixo representam cenários, e não metas de preço fixas.


Cenário Possível área USD/BRL O que poderia motivar isso?
O Real continua a ser apoiado R$ 4,90 – R$ 5,05 As isenções contêm o impacto das negociações comerciais, o dólar permanece fraco e Selic se mantém próximo aos níveis atuais.
Consolidação R$ 5,05 – R$ 5,25 O apoio financeiro compensa a incerteza tarifária, fiscal e eleitoral.
A realidade enfraquece Acima de R$ 5,25 – R$ 5,30 Tarifas adicionais, retaliação, descompasso fiscal, cortes mais rápidos na taxa Selic ou uma aversão global ao risco.


A marca de R$ 5,00 é melhor compreendida como um ponto de inflexão psicológico do que como um piso firme. O USD/BRL já negociou abaixo desse nível antes, e choques políticos ou globais podem levar o par a romper rapidamente níveis de números redondos.


Datas importantes para USD/BRL

Quatro datas se destacam nos próximos meses: a nova alíquota de 25% do Artigo 301 entra em vigor em 22 de julho; a sobretaxa temporária do Artigo 122 expira em 24 de julho; a próxima reunião de política monetária do Copom ocorre nos dias 4 e 5 de agosto; e o primeiro turno das eleições presidenciais brasileiras acontece em 4 de outubro.


Nenhum desses fatores, por si só, definirá a direção do USD/BRL, mas cada um deles tem o potencial de remodelar as expectativas em torno do comércio, da inflação, da política fiscal ou das taxas de juros, variáveis com muito maior probabilidade de influenciar a cotação do par.


Conclusão

A nova tarifa de 25% dos EUA não invalida, por si só, os argumentos a favor do real. As isenções atenuam seu impacto direto, e a taxa Selic de 14,25% do Brasil ainda oferece uma das maiores vantagens em termos de juros entre os grandes mercados emergentes líquidos.


Esse apoio é real, mas condicional: a moeda torna-se mais vulnerável se as tarifas aumentarem, se o Brasil retaliar, se as preocupações fiscais se intensificarem antes das eleições ou se o Copom fizer cortes mais agressivos do que o esperado.


Para quem acompanha o USD/BRL, o diferencial de juros continua sendo a primeira variável a ser monitorada; a tarifa só se torna decisiva quando começa a alterar os fluxos de capital, as expectativas de inflação ou a trajetória esperada das taxas brasileiras.

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