Atas do Fed Foram Hawkish. Por Que os Juros Longos e o Dólar Caíram?
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Atas do Fed Foram Hawkish. Por Que os Juros Longos e o Dólar Caíram?

Publicado em: 2026-08-20   
Atualizado em: 2026-08-20

A ata de julho do Fed mostrou que vários dirigentes eram favoráveis a juros mais altos, mas os rendimentos dos títulos do Tesouro americano (Treasuries) de 10 e 30 anos caíram em 19 de agosto, enquanto o índice do dólar recuou abaixo de 99 pontos. Grande parte dessa aparente contradição se explica pelo momento em que cada informação chegou ao mercado. A ata refletia as opiniões dos dirigentes em 29 de julho; dados mais recentes de emprego e inflação já haviam reduzido as apostas em novas altas de juros, e o Tesouro americano trouxe, na sequência, informações inéditas sobre suporte de liquidez na ponta longa do mercado de títulos.

gráfico ilustrando o tom hawkish da ata de julho do Fed e a reação dos juros do Tesouro americano

Principais pontos

  • O Tesouro americano vai pelo menos dobrar as recompras de suporte de liquidez na ponta longa da curva, elevando o teto de US$ 2 bilhões para no mínimo US$ 4 bilhões por operação, com início em 9 de setembro e vigência até 4 de novembro.

  • O rendimento do título de 2 anos do Tesouro americano fechou levemente mais alto, a 4,178%, mostrando que o sinal hawkish do Fed ainda afetou a ponta da curva mais sensível à política monetária.

  • Os rendimentos longos caíram ainda mais após o anúncio do Tesouro, com o título de 30 anos chegando a cair para 5,187%, à medida que o mercado precificou maior demanda do Tesouro por títulos mais antigos e de longo prazo, os chamados off-the-run.

  • O dólar já vinha perdendo força antes do anúncio do Tesouro, à medida que dados mais fracos dos Estados Unidos reduziam as apostas em novas altas de juros. A queda dos rendimentos longos se somou como mais um fator de pressão ao longo do pregão.


A Ata Foi Hawkish, mas os Dados Eram Mais Recentes

A ata da reunião do Fed de 28 e 29 de julho mostrou um viés claramente hawkish. Vários dirigentes eram favoráveis a uma alta de 25 pontos-base, muitos consideraram que uma política mais restritiva poderia ser necessária caso a inflação não recuasse, e alguns questionaram se as condições financeiras já eram suficientemente restritivas. Ainda assim, o rendimento do título de 2 anos fechou levemente mais alto, a 4,178%.


A ata, porém, já tinha três semanas quando foi divulgada. Desde aquela reunião, a folha de pagamentos de julho caiu em 23 mil postos de trabalho, e os números de criação de emprego de maio e junho foram revisados para baixo em um total de 103 mil. O CPI (índice de preços ao consumidor) de julho subiu apenas 0,1% na comparação mensal, enquanto o núcleo do CPI avançou 0,2%, e os preços ao produtor de julho ficaram estáveis no mês.


Esses dados já haviam levado o mercado a reduzir as apostas em um aperto monetário do Fed no curto prazo. A ata acrescentou informações sobre o quão hawkish os dirigentes estavam em julho, enquanto os indicadores econômicos ofereceram um retrato mais atual das condições no início de agosto.


Tesouro Pelo Menos Dobra os Limites na Ponta Longa

O Tesouro americano anunciou em 19 de agosto que o teto das recompras de suporte de liquidez nos segmentos nominais de 10 a 20 anos e de 20 a 30 anos passaria de US$ 2 bilhões para pelo menos US$ 4 bilhões por operação. A mudança entra em vigor em 9 de setembro e vale até 4 de novembro.


O objetivo declarado pelo Tesouro é específico. O órgão afirmou que as operações maiores vão oferecer mais suporte de liquidez nos segmentos de longo prazo, onde costuma receber ofertas robustas. O programa permite que os detentores vendam de volta ao Tesouro títulos off-the-run, mais antigos e menos líquidos. Oficialmente, o programa não foi criado para fixar ou limitar os rendimentos de longo prazo.


Ainda assim, o mercado reagiu com força. Os rendimentos longos já vinham caindo e recuaram ainda mais após o anúncio. O título de 10 anos passou de 4,682% para 4,651%, enquanto o de 30 anos caiu de 5,266% para 5,202% e chegou a ser negociado a 5,187% mais tarde.


A compra adicional é pequena diante de um mercado de Treasuries de cerca de US$ 32,2 trilhões. O movimento imediato, portanto, refletiu tanto as expectativas em torno dessa demanda extra do Tesouro e a surpresa quanto ao momento do anúncio, quanto o valor em si.


Por que a Curva de Juros se Achatou

O rendimento do título de 10 anos encerrou 19 de agosto cerca de 5 pontos-base mais baixo, e o de 30 anos, cerca de 9 pontos-base mais baixo, enquanto o de 2 anos fechou marginalmente mais alto. O espaço entre os rendimentos de curto e longo prazo se estreitou de forma acentuada.


Os vencimentos mais curtos respondem de forma mais direta às expectativas sobre a política do Fed. Já os rendimentos mais longos também incorporam o risco de inflação, a oferta de títulos do Tesouro, a demanda por duration, a liquidez e o prêmio de prazo (term premium).


Os dois anúncios, portanto, afetaram partes diferentes da curva. A ata hawkish manteve a pressão sobre a ponta curta, mais sensível à política monetária, enquanto as compras maiores planejadas pelo Tesouro melhoraram as perspectivas de demanda por títulos off-the-run de prazo mais longo e ajudaram a estender o rali para os vencimentos mais distantes.


Essa reação não transforma os Treasuries em um mecanismo de controle de juros. Ela mostra que decisões de gestão da dívida podem afetar a precificação do mercado mesmo quando o sinal de política monetária do Fed aponta em outra direção.


Por que o Dólar Já Estava Fraco

A queda do dólar começou antes de o Tesouro anunciar as recompras maiores. No início do dia 19 de agosto, o índice DXY já recuava cerca de 0,2%, próximo de 99,47 pontos, enquanto o mercado aguardava a ata do Fed, depois que dados mais fracos do mercado de trabalho e uma inflação contida haviam reduzido as apostas em novas altas de juros. Mais tarde, o índice caiu abaixo de 99 pontos e chegou a ser negociado perto de 98,94 no início do pregão de 20 de agosto.


Essa sequência mostra que a explicação para o câmbio vai além da queda dos rendimentos longos do Tesouro. A precificação de moedas depende dos juros esperados de forma relativa entre países, dos rendimentos estrangeiros, do posicionamento dos investidores, dos custos de hedge e das condições de risco. O mercado já havia reprecificado a trajetória esperada do Fed para um patamar mais baixo do que registrado após a reunião de julho.


O anúncio do Tesouro somou mais uma fonte de pressão, ao acelerar a queda dos rendimentos longos. Segundo a Reuters, o dólar permanecia perto das mínimas em três meses em 20 de agosto, enquanto o mercado digeria a decisão do Tesouro, e o rendimento do título de 30 anos se mantinha perto de 5,18%.


Os dados fracos dos Estados Unidos foram os primeiros a enfraquecer o dólar. Em seguida, o anúncio de recompras do Tesouro reforçou o movimento por meio da ponta longa do mercado de títulos.


Perguntas Frequentes

Por que os rendimentos de longo prazo podem cair após uma ata hawkish do Fed?

Os rendimentos curtos respondem de forma mais direta às expectativas sobre a política do Fed. Os rendimentos longos também refletem a inflação, a oferta de títulos, a liquidez, a demanda por duration e o prêmio de prazo, o que permite que diferentes trechos da curva de juros do Tesouro se movam em direções opostas.


As recompras do Tesouro são uma forma de afrouxamento quantitativo?

Não. O Tesouro usa essas recompras para gestão da dívida e suporte de liquidez em títulos mais antigos. O afrouxamento quantitativo (quantitative easing) é uma operação de política monetária do Fed, que envolve compras de ativos pelo banco central com o objetivo de influenciar as condições financeiras de forma mais ampla.


Por que o dólar já estava caindo antes do anúncio do Tesouro?

Dados recentes de emprego e inflação já haviam reduzido as apostas em novas altas de juros do Fed no curto prazo. Isso enfraqueceu o dólar antes de 19 de agosto, enquanto o anúncio do Tesouro e a queda dos rendimentos longos aumentaram a pressão mais tarde.


O que o mercado deve observar quando as recompras maiores começarem?

O teste relevante é verificar se as operações maiores melhoram a liquidez dos títulos off-the-run de prazo mais longo, e se o mercado continua atribuindo um efeito perceptível de preço a essa demanda extra do Tesouro, mais do que observar qualquer nível específico de rendimento.


A Primeira Operação na Ponta Longa Será o Teste

Os novos limites entram em vigor em 9 de setembro, embora essa data não esteja atualmente agendada para nenhuma operação de suporte de liquidez na ponta longa. O cronograma preliminar divulgado pelo Tesouro em 5 de agosto lista uma operação de 10 a 20 anos para 10 de setembro e uma operação de 20 a 30 anos para 24 de setembro. O Tesouro afirmou que divulgará um cronograma atualizado mais adiante, de modo que essas datas ainda podem mudar.


A primeira operação ampliada na ponta longa após 9 de setembro oferecerá um teste mais claro do programa do que observar isoladamente o rendimento do título de 30 anos.

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