Publicado em: 2026-07-16
Atualizado em: 2026-07-16
O trigo negociado na Bolsa de Chicago (CBOT) fechou a terça-feira (14) em alta, com o contrato de setembro/26 subindo 9,75 pontos, a US$ 6,45 por bushel. O gatilho foi a escalada das hostilidades entre Ucrânia e Rússia, maior exportadora mundial do grão, depois que ataques de drones ucranianos restringiram a navegação no Mar de Azov, rota por onde passa cerca de um quarto das exportações russas de grãos. Nesta quarta-feira, o contrato voltou a abrir perto de US$ 6,44, sustentando o patamar.

No Brasil, o movimento é oposto. Enquanto Chicago sobe, o mercado físico no Sul do país simplesmente parou de girar. Moinhos compram apenas o volume necessário para as próximas semanas, produtores seguram a venda esperando preços melhores, e negócios como os do Paraná, onde vendedores pedem R$ 1.500 FOB e compradores oferecem R$ 1.450 CIF pelo trigo tipo 1, não saem do papel. O pano de fundo é uma safra nacional que a Conab projeta 20% menor que a de 2025.
A alta desta semana tem origem geopolítica, não climática. Na terça-feira (14), a escalada entre Ucrânia e Rússia levou a ataques de drones ucranianos contra embarcações no Mar de Azov, restringindo a navegação numa rota que responde por cerca de 25% das exportações russas de grãos. Como a Rússia é a maior exportadora mundial de trigo, qualquer ameaça a esse fluxo tende a mexer com o preço em Chicago.
Há também um fator técnico reforçando o movimento. Segundo a Reuters, fundos de commodities administrados mantêm uma posição líquida vendida expressiva em trigo na CBOT, o que deixa o mercado mais suscetível a rallies de cobertura de posição quando uma notícia como essa aparece. O contrato de setembro/26 chegou a rondar a máxima de sete semanas, US$ 6,53, atingida na segunda-feira (13), antes de recuar um pouco e fechar a US$ 6,45 na terça.
Enquanto Chicago reage a manchetes, o mercado físico brasileiro vive um problema mais simples: comprador e vendedor não se entendem no preço. No Paraná, vendedores pedem R$ 1.500 FOB pelo trigo tipo 1, enquanto compradores oferecem R$ 1.450 CIF, um impasse que já derrubou o preço médio pago ao produtor em 0,36% na semana, para R$ 77,14 por saca.
Em Santa Catarina, o retrato é ainda mais parado. Apenas um lote de trigo branqueador foi negociado recentemente, a R$ 1.550 FOB, e os preços seguem travados entre R$ 1.330 e R$ 1.360 FOB. As vendas de sementes para a próxima safra caíram cerca de 20% na comparação anual, um sinal antecedente que reforça a projeção da Conab de retração na produção catarinense mesmo com aumento de área plantada.
No Rio Grande do Sul, maior produtor nacional, o volume negociado numa semana recente somou apenas 12 mil toneladas, considerado baixo para o período. O trigo pão, que era negociado perto de R$ 1.350 por tonelada em meados de junho, recuou para a faixa de R$ 1.300 para retirada em agosto. A Emater-RS projeta produção estadual de cerca de 2,2 milhões de toneladas em 2026, bem abaixo das 3,8 a 4 milhões colhidas em safras recentes.
O levantamento mais recente da Companhia Nacional de Abastecimento projeta a safra brasileira de trigo em 6,3 milhões de toneladas em 2026, volume 20% inferior ao colhido em 2025 e 1,4% abaixo da própria estimativa de maio da Conab. A retração não vem só de clima: é uma combinação de menos área plantada com produtividade mais baixa.
Área cultivada: 2,12 milhões de hectares, queda de 13,4% ante 2025
Produtividade média projetada: 2,974 toneladas por hectare, recuo de 7,6%
Rentabilidade da cultura pouco atrativa levou parte dos produtores a migrar para outras culturas
Rio Grande do Sul pode precisar importar cerca de 240 mil toneladas contra disponibilidade doméstica de 210 mil toneladas, aproximando os preços internos da paridade de importação
Argentina, principal fornecedora externa do Brasil, também projeta safra menor: 20,9 milhões de toneladas para 2026/27, queda de 2,7% segundo a Safras & Mercado
O mesmo grão, dois ritmos: Chicago responde à guerra em horas, enquanto o mercado físico do Sul do Brasil trava em um impasse de preço entre moinhos cautelosos e produtores que seguram a venda esperando valorização.
O contrato de setembro/26 opera atualmente em zona de força técnica. Segundo dados da Investing.com, o sinal diário consolidado de médias móveis e osciladores aponta para "compra forte" no curto prazo, reflexo direto do rali de cobertura de posições vendidas iniciado com a escalada geopolítica.
Para o trader que opera o grão via CFD, a leitura de curto prazo é de mercado apoiado por fluxo de notícias, não por fundamentos de oferta global, que seguem relativamente confortáveis. Isso costuma significar movimentos mais voláteis e reversíveis: uma sinalização de trégua entre Rússia e Ucrânia tende a esvaziar boa parte do prêmio de risco embutido no preço atual.
Sem cravar direção, três caminhos concentram a atenção do mercado global de trigo no curto prazo.
Ataques no Mar de Azov seguem pontuais, sem interrupção prolongada das exportações russas. O prêmio de risco geopolítico se estabiliza e Chicago volta a acompanhar principalmente clima e colheita do Hemisfério Norte.
Novos ataques a embarcações ou infraestrutura portuária no Mar Negro reduzem de forma mais persistente o fluxo de exportação russo, sustentando ou ampliando o prêmio pago pelo trigo em Chicago.
Sinais de negociação entre as partes, como já ocorreu em ciclos anteriores do conflito, tendem a dissolver rapidamente parte do prêmio de risco e pressionar os preços de volta para a faixa técnica anterior.
No Brasil, o fator determinante nas próximas semanas deixa de ser Chicago e passa a ser o clima no Sul. A possível consolidação do El Niño no inverno e na primavera aumenta o risco de chuvas acima da média nas principais regiões produtoras, o que eleva a chance de incidência de doenças como o DON (Deoxinivalenol), micotoxina que compromete a qualidade industrial do grão e pode afetar diretamente a comercialização junto aos moinhos.
Para quem acompanha o mercado via CFDs de commodities, o trigo negociado em Chicago segue sendo a referência de preço mais líquida e mais sensível a notícias, enquanto o mercado físico brasileiro funciona como termômetro da oferta doméstica real, hoje mais restrita do que em qualquer momento dos últimos anos.
A escalada entre Rússia e Ucrânia levou a ataques de drones contra navios no Mar de Azov, rota que escoa cerca de 25% das exportações russas de grãos. Como a Rússia é a maior exportadora mundial de trigo, o mercado reagiu com alta, amplificada por fundos que mantinham posição vendida no grão.
É um impasse de preço interno. Moinhos compram apenas o volume necessário para as próximas semanas, enquanto produtores seguram a venda esperando valorização adicional. No Paraná, por exemplo, vendedores pedem R$ 1.500 FOB e compradores oferecem R$ 1.450 CIF, sem acordo.
A Conab projeta 6,3 milhões de toneladas, queda de 20% ante 2025. A área cultivada recuou 13,4%, para 2,12 milhões de hectares, e a produtividade média caiu 7,6%, para 2,974 toneladas por hectare.
Estimativas de mercado apontam disponibilidade doméstica de cerca de 210 mil toneladas no estado, contra uma necessidade de importação estimada em 240 mil toneladas até a chegada da nova safra, o que aproxima os preços internos da paridade de importação.
Em parte. A Argentina é a principal fornecedora externa do Brasil, mas sua própria safra 2026/27 é projetada em 20,9 milhões de toneladas pela Safras & Mercado, queda de 2,7% ante o ciclo anterior, o que reduz a folga disponível para exportação.
Sim. A possível consolidação do El Niño no inverno e na primavera aumenta o risco de chuvas acima da média no Sul, elevando as chances de doenças fúngicas e da micotoxina DON, que compromete a qualidade do grão e pode restringir ainda mais a comercialização.
O trigo hoje resume dois mercados que operam em velocidades diferentes. Em Chicago, o preço reage em horas a uma escalada geopolítica no Mar Negro, sustentado por fundos que corriam para cobrir posições vendidas. No Sul do Brasil, o mesmo grão está preso num impasse de preço entre moinhos cautelosos e produtores que seguram a venda, num pano de fundo de safra 20% menor segundo a Conab. As próximas semanas devem ser decididas por dois fatores que pouco têm a ver entre si: o desfecho do conflito Rússia-Ucrânia e o comportamento do clima no Sul do país durante a janela crítica do El Niño.