Tokenização de ativos no Brasil: O que muda em 2026
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Tokenização de ativos no Brasil: O que muda em 2026

Autor:Pietro Costa

Publicado em: 2026-07-27   
Atualizado em: 2026-07-27

A tokenização de ativos deixou de ser experimento de fintech e entrou no circuito do mercado financeiro tradicional brasileiro. Desde 2012, o país acumula 5.614 ativos tokenizados, equivalentes a R$ 13,55 bilhões, segundo levantamento da plataforma RWA Monitor. Só em 2026 foram emitidos 684 ativos, que movimentaram R$ 6,87 bilhões até julho.


Em termos simples, tokenizar é registrar em uma rede de blocos o direito econômico sobre um ativo que já existe. Um recebível, uma cota de fundo, uma fração de imóvel ou um crédito de carbono passa a ser representado por um registro digital transferível. A tecnologia não cria valor novo: ela muda a forma de emitir, registrar, negociar e liquidar o que já existe.


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O que é tokenização de ativos e como funciona?


O processo começa com a estruturação jurídica do ativo subjacente. Definido o lastro, emite se o token em uma infraestrutura de registro distribuído, que pode ser pública ou privada. Cada unidade carrega a informação de titularidade e as regras de pagamento programadas em contrato inteligente.


A diferença em relação a uma criptomoeda é fundamental. Um token de recebível não tem valor próprio nem oferta especulativa: ele vale o que vale o fluxo de caixa que representa. Quem já pesquisou quanto é preciso para investir em criptomoedas percebe rapidamente que a lógica de precificação aqui é outra, mais próxima da renda fixa privada do que de ativos digitais nativos.


A infraestrutura também difere. Redes permissionadas usadas por instituições financeiras não dependem de validação aberta nem de mineração de criptomoedas para garantir consenso. Um exemplo dessa arquitetura voltada a bancos é a Canton Network, desenhada para permitir privacidade entre participantes e liquidação atômica de operações.


Qual é o papel da CVM e da Anbima nesse avanço?


A Resolução CVM 88 consolidou se como o principal marco para ofertas tokenizadas de menor porte no Brasil, ao definir o regime de crowdfunding de investimento. Paralelamente, o Banco Central editou normas que disciplinam prestadores de serviços de ativos virtuais, reduzindo a zona cinzenta que travava a entrada de instituições reguladas.


A Anbima lançou em outubro de 2025 um projeto piloto de rede de registro distribuído voltado a fundos de investimento e debêntures. Foram 39 propostas recebidas e 20 selecionadas em abril de 2026 para a fase de testes, que simula o ciclo completo do ativo, da estruturação à liquidação. A governança do piloto inclui um comitê de acompanhamento que reúne a própria associação, o Banco Central e a CVM.


A escolha de debêntures e fundos não foi aleatória. São os dois segmentos mais representativos da indústria brasileira: a captação de debêntures somou R$ 492,8 bilhões em 2025 e o patrimônio líquido dos fundos chegou a R$ 10,8 trilhões. Testar a tecnologia onde há maior volume é a forma mais rápida de descobrir onde ela quebra.


Quais ativos já estão sendo tokenizados?


O leque é mais amplo do que se imagina. Há empresas estruturando frações de empreendimentos imobiliários, créditos de carbono, royalties musicais convertidos em certificados de recebíveis e até antecipação de pagamentos de plantões médicos. O denominador comum é a existência de um fluxo de caixa previsível que pode ser fracionado.


O crescimento é expressivo em termos relativos. Em janeiro de 2026, o volume mensal de emissões tokenizadas ultrapassou R$ 1,5 bilhão, contra cerca de R$ 122 milhões no mesmo mês de 2025. Ainda assim, o número segue pequeno diante do mercado de capitais tradicional, o que indica um setor em fase de amadurecimento e não de substituição.


Para investidores que enxergam na tokenização um movimento de longo prazo na infraestrutura de mercado, mas querem exposição a empresas de tecnologia já listadas enquanto o segmento amadurece, a página de CFDs de ações da EBC reúne as especificações de papéis como NVDA.OQ e AAPL. Operações alavancadas ampliam ganhos e perdas na mesma proporção.


Vale contextualizar a escala. As emissões de dívida tradicionais no Brasil captaram R$ 544,8 bilhões em 2025, contra pouco mais de R$ 13 bilhões acumulados em tokenização ao longo de treze anos. A comparação não desqualifica a tecnologia, mas ajuda a calibrar expectativas: o segmento cresce em ritmo de três dígitos partindo de uma base muito pequena, e taxas assim raramente se sustentam por muitos anos seguidos.


Quais são os riscos e limitações atuais?


O primeiro risco é de lastro. Um token só é tão sólido quanto o ativo que o respalda e a estrutura jurídica que garante ao detentor o direito sobre ele em caso de falência da emissora. Auditoria de lastro e segregação patrimonial são pontos que o investidor precisa verificar antes de qualquer aporte.


O segundo é de liquidez. A promessa de negociação contínua depende de haver comprador do outro lado, e o mercado secundário brasileiro de tokens ainda é raso. Diferente de uma cota de ETF negociada em bolsa, muitos tokens não têm formador de mercado. Quem compara alternativas de acesso diversificado costuma avaliar antes as opções entre ETFs e fundos de índice, que já contam com liquidez estabelecida.


Há ainda o risco tecnológico e o regulatório. Falhas em contrato inteligente são de correção difícil depois de implantadas, e a moldura normativa segue em construção. Um sinal de cautela veio do próprio setor público: o projeto Drex passou por reavaliação no fim de 2025, quando o Banco Central decidiu descontinuar a plataforma usada nas fases iniciais de teste.


O que isso significa para o investidor pessoa física?


No curto prazo, pouco muda na rotina de quem investe pela bolsa brasileira. A tokenização atua na camada de infraestrutura, e seus benefícios aparecem primeiro como redução de custo e de prazo de liquidação para os emissores, não como um produto novo na tela do investidor de varejo.


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No médio prazo, o efeito potencial é o acesso fracionado a classes de ativos antes restritas a grandes tickets, como crédito privado estruturado e imóveis comerciais. É aí que a tecnologia pode ampliar de fato o cardápio disponível, desde que acompanhada de transparência de lastro e de um mercado secundário funcional.


Conclusão


O avanço da tokenização de ativos no Brasil é real e mensurável, com apoio institucional que reduz o risco regulatório. Mas R$ 13,55 bilhões acumulados em mais de uma década ainda representam uma fração pequena do mercado de capitais. Trata se de uma transformação de infraestrutura em curso, com horizonte de anos, e não de uma oportunidade de rendimento imediato.


Perguntas Frequentes (FAQ)


Token e criptomoeda são a mesma coisa?

Não. A criptomoeda é um ativo digital nativo sem lastro externo. O token de ativo real representa um direito sobre algo que existe fora da rede.


Preciso de carteira digital para investir em ativos tokenizados?

Depende da plataforma. Em ofertas reguladas por regime de crowdfunding, a custódia costuma ficar com a própria emissora ou com um custodiante contratado.


Ativos tokenizados são cobertos pelo Fundo Garantidor de Créditos?

Não. O FGC cobre depósitos e alguns títulos bancários específicos. Tokens de recebíveis e de participação ficam fora dessa proteção.


Como funciona a tributação desses ativos?

A regra segue a natureza do ativo subjacente. Rendimentos de recebíveis geralmente entram na tabela regressiva; ganhos de capital seguem as alíquotas próprias.


O que é liquidação atômica?

É a troca simultânea de ativo e pagamento no mesmo registro, sem intervalo entre as pontas. Elimina o risco de uma parte entregar e a outra não.


Aviso Legal: Este material destina-se apenas a fins informativos gerais e não deve ser interpretado como (nem considerado como) aconselhamento financeiro, de investimento ou qualquer outro tipo de orientação na qual se deva basear decisões. Nenhuma opinião expressa neste material constitui recomendação da EBC ou do autor de que qualquer investimento, título, transação ou estratégia de investimento específica seja adequada para qualquer pessoa em particular.