Publicado em: 2026-07-03
Atualizado em: 2026-07-03
O payroll de junho saiu pela metade do que o mercado esperava. Os Estados Unidos criaram 57 mil vagas de trabalho fora do setor agrícola, bem abaixo da mediana de 110 mil a 115 mil projetada por analistas. A reação foi imediata: por volta das 10h48 desta quinta-feira, o Ibovespa subia 1,32%, aos 174 mil pontos, enquanto o dólar recuava 0,49%, cotado a R$ 5,18.
O dado chega em um momento sensível para o Federal Reserve. Kevin Warsh, novo presidente do BC americano, fez sua estreia dura em 17 de junho e reforçou o tom em discurso na Europa na véspera, afirmando que a inflação segue “alta demais”. Um mercado de trabalho mais fraco reduz o espaço para uma nova alta de juros em setembro, mas não resolve o dilema entre atividade em desaceleração e preços ainda pressionados pelo petróleo.
O Departamento do Trabalho dos EUA divulgou o relatório nesta quinta-feira, um dia antes do habitual, por causa do feriado do 4 de julho. O resultado ficou bem distante da média mensal dos últimos doze meses, de 36 mil novas vagas, mas também abaixo de qualquer cenário otimista desenhado pelo mercado na véspera.
As revisões dos meses anteriores também pesaram na leitura do mercado. Abril caiu de 179 mil para 148 mil vagas, e maio foi revisado de 172 mil para 129 mil. No total, os dois meses somados ficaram 74 mil vagas abaixo do informado originalmente pelo Bureau of Labor Statistics.
Por setor, serviços profissionais e empresariais, assistência social e saúde seguiram contratando, com a saúde somando 22 mil vagas. Já o setor de lazer e hotelaria perdeu 61 mil postos no mês, reflexo de uma temporada de contratações sazonais mais fraca que o normal.
A taxa de desemprego caiu para 4,2%, surpreendendo a expectativa de estabilidade em 4,3%. À primeira vista, o número parece positivo. Mas ele veio acompanhado de um encolhimento de 720 mil pessoas na força de trabalho, a maior queda mensal fora do período da pandemia em toda a série histórica do indicador.
O recuo se concentrou principalmente na faixa de 25 a 34 anos. Para o economista sênior André Valério, do Inter, o movimento está associado ao controle migratório mais rígido do governo americano, que reduz a oferta de mão de obra disponível no país. Nessa leitura, o mercado de trabalho estaria mais em equilíbrio do que em expansão.
O Ibovespa chega para esta sessão depois de três pregões seguidos de queda. Na quarta-feira (1º), o índice recuou 0,20%, a 171.688,61 pontos, pressionado por sanções dos EUA a brasileiros ligados ao PCC e pela repercussão de uma nova pesquisa eleitoral. O dólar havia fechado em alta de 0,90%, a R$ 5,209.
Com o payroll fraco, o cenário virou. Por volta das 10h40, o Ibovespa avançava 1,32%, aos 174 mil pontos, enquanto o dólar cedia 0,49%, para R$ 5,18. Em Nova York, o Dow Jones subia 0,5%, o S&P 500 avançava 0,2% e o Nasdaq tinha leve ganho de 0,1%. Os rendimentos dos Treasuries de dois anos recuaram após a divulgação.
O movimento se espalhou pela Europa: o Stoxx 600 subia 1,19%, o DAX avançava 1,66% e o CAC 40 ganhava 1,41%. Na Ásia, o quadro foi mais misto, mas em Hong Kong o Hang Seng avançou 0,58%, um sinal de que a demanda chinesa segue como um dos pilares de sustentação para ativos de mercados emergentes, Brasil incluído.
Segundo a ferramenta CME FedWatch, a chance de o Fed elevar os juros na reunião de setembro caiu de 64,3% para 50,6% logo após a divulgação do payroll. O Fed manteve a taxa inalterada no último encontro, em 17 de junho, mas havia sinalizado espaço para uma alta ainda em 2026.
No Brasil, a Selic está em 14,25% ao ano desde o corte de 0,25 ponto percentual decidido em 17 de junho. O próximo encontro do Copom acontece nos dias 4 e 5 de agosto. As casas ainda não têm consenso sobre a direção: a Warren Investimentos projeta manutenção com viés neutro, enquanto a XP revisou a projeção para a Selic terminar 2026 em 14%, ante 14,25% antes.
O Copom tem sinalizado cautela por causa da inflação projetada acima do teto da meta e da incerteza fiscal e eleitoral. Um payroll mais fraco nos EUA tende a aliviar a pressão externa sobre o câmbio, mas os fatores domésticos seguem no centro da decisão do Banco Central.
No mesmo horário da divulgação do payroll, a Fipe informou que o IPC-Fipe de junho subiu 0,18% na cidade de São Paulo, desacelerando ante a alta de 0,45% em maio. O resultado ficou dentro do intervalo esperado pelo mercado, de 0,12% a 0,24%, mas abaixo da mediana de 0,21%.
No acumulado de 12 meses até junho, o IPC-Fipe avançou 3,92%, acelerando frente aos 3,65% de maio. No primeiro semestre de 2026, a inflação medida pelo indicador soma 2,11%.
Para quem opera no intradiário, os níveis de referência mudam rápido em dias de payroll. Com base na sessão desta quinta-feira, os pontos abaixo funcionam como referência para gestão de risco, não como recomendação de entrada ou saída.
Leitura técnica objetiva: o movimento de hoje nasceu de um gatilho externo (payroll), não de um fluxo estrutural doméstico. Isso tende a deixar o Ibovespa e o dólar sensíveis a qualquer sinalização adicional do Fed ou a novos dados de atividade nos próximos pregões.
Os EUA criaram apenas 57 mil vagas em junho, contra expectativa de 110 mil a 115 mil. O setor de lazer e hotelaria perdeu 61 mil postos, puxando o resultado para baixo, enquanto abril e maio também foram revisados para números menores que os divulgados originalmente.
A queda para 4,2% veio junto de um encolhimento de 720 mil pessoas na força de trabalho, a maior queda fora do período da pandemia. Menos gente procurando emprego reduz a taxa de desemprego mesmo sem forte criação de vagas.
Um Fed mais cauteloso tende a aliviar a pressão externa sobre o câmbio e os juros globais, o que pode dar espaço ao Copom. Mas fatores domésticos, como inflação acima da meta e o cenário eleitoral, seguem pesando na decisão de agosto.
O movimento de hoje nasceu de um gatilho externo, o que deixa o índice sensível a novos dados. A continuidade da alta depende da confirmação técnica acima da resistência de 174.000 a 175.500 pontos, com volume consistente.
Um payroll fraco reduz a chance de o Fed subir juros, o que diminui o apetite por dólar como reserva de valor e melhora o apetite por risco global. Isso favorece moedas emergentes, incluindo o real, no curto prazo.
É uma ferramenta que estima a probabilidade de mudança nos juros americanos com base nos contratos futuros de Fed Funds. Suas leituras ajudam a antecipar o humor do dólar e dos ativos de risco no Brasil em dias de dados importantes.
O próximo payroll, referente a julho, será divulgado em 7 de agosto de 2026. O Copom se reúne nos dias 4 e 5 de agosto para decidir os rumos da Selic, atualmente em 14,25% ao ano.
O IPC-Fipe desacelerou em junho, mas o acumulado em 12 meses subiu para 3,92%. É um sinal de desinflação no curto prazo, mas ainda não garante que a inflação cheia do país vá convergir para o centro da meta no ano.
O payroll de junho reduziu pela metade a criação de vagas esperada nos EUA e reacendeu a aposta em um Fed mais cauteloso, o que aliviou o Ibovespa e derrubou o dólar nesta quinta-feira. No Brasil, a desaceleração do IPC-Fipe reforça a leitura de que a inflação segue perdendo força, mesmo com a Selic parada em 14,25%.
Os próximos catalisadores já estão marcados no calendário: o Copom se reúne em 4 e 5 de agosto, e o payroll de julho sai em 7 de agosto. Até lá, o mercado deve seguir reagindo a cada novo dado de atividade e inflação, tanto nos EUA quanto no Brasil.