Publicado em: 2026-05-30
A Ferrari apresentou o Luce em Roma na noite de 25 de maio de 2026 e o mercado respondeu no pregão seguinte com a maior queda da ação em meses. O primeiro modelo 100% elétrico da história da marca caiu, em Milão, 8.4% o equivalente à destruição de mais de €13 bilhões em valor de mercado em um único dia. Em Nova York, o papel RACE recuou cerca de 6%. O design assinado por Jony Ive, ex-chefe de design da Apple, foi comparado online a um Nissan Leaf e a um Toyota de entrada. O ex-presidente da empresa pediu que "retirassem o cavalo rampante" do carro.

A reação foi violenta, mas o histórico pede cautela. Em 2022, quando a Ferrari apresentou o Purosangue seu primeiro modelo de quatro portas, lido como a traição definitiva ao legado de Enzo, o mercado também puniu as ações. O Purosangue se tornou o modelo mais vendido da marca. A questão agora é saber se o Luce segue o mesmo roteiro ou se representa um risco estrutural diferente. E a resposta importa para quem carrega RACE na carteira.
O Luce rompe com tudo que o cliente tradicional da Ferrari conhece. É o primeiro modelo com cinco lugares, o primeiro 100% elétrico e o primeiro com design terceirizado entregue ao estúdio LoveFrom, de Jony Ive. A ideia de emitir um som artificial de motor por alto-falantes internos e externos para simular a aceleração foi ao mesmo tempo elogiada como engenhosa e ridicularizada como artificial. A briga narrativa ao redor do carro moveu o mercado antes mesmo de qualquer dado de demanda.
O CEO Benedetto Vigna chamou o lançamento de "um dia muito, muito importante" e "um novo capítulo" da empresa. O presidente John Elkann levou o Luce ao Palácio do Quirinal para apresentação ao presidente italiano Sergio Mattarella. A estratégia de comunicação foi impecável. A reação estética nas redes sociais, não.
Fevereiro de 2026
Ferrari confirma nome e interior do Luce
A empresa revela oficialmente o nome "Luce" e o design interior. A ação RACE negocia próxima de US$ 400–430 na NYSE. Evercore ISI mantém rating de compra com alvo de US$ 475.
05 de maio de 2026
1T26: resultado sólido, mas ação reage frio
Ferrari fecha o trimestre com receita de €1.848 bilhão, lucro líquido de €413 milhões e confirma guidance. O mercado não se anima, e a ação já acumula queda de quase 27% em 12 meses.
25 de maio de 2026
Luce revelado em Roma - em três fases
A apresentação em Roma é espetacular. CEO Vigna celebra. Nas redes sociais, o design já começa a ser comparado a um Honda Accord EV e a um Toyota de entrada.
26 de maio de 2026
RACE despenca 8.4% em Milão, -6% na NYSE
Maior queda desde outubro. €13 bilhões em valor de mercado evaporam. Luca di Montezemolo, ex-presidente da Ferrari, afirma que preferia não comentar para "não piorar a situação".
27 de maio de 2026
Recuperação parcial. Analistas entram em campo
RACE sobe mais de 2% pela manhã em Milão antes de fechar com leve queda. RBC, Citi e Bernstein publicam notas. A leitura dominante: reação foi exagerada, mas os riscos estruturais existem.
A declaração de Montezemolo não foi sutil. O homem que comandou a Ferrari por décadas e presidiu os anos de ouro com Michael Schumacher afirmou, em evento na Itália, que a empresa corria risco de destruir um mito e disse preferir não aprofundar o assunto para não piorar as coisas. O efeito foi imediato: mais pressão sobre o papel em Milão.
Na mesma linha, o vice-primeiro-ministro e ministro dos Transportes italiano, Matteo Salvini, publicou no X: "Elétrico, caríssimo e, do ponto de vista estético, fala por si... Parece qualquer coisa menos um carro da Ferrari." O vice-premiê de um país G7 criticando uma empresa de €56 bilhões em valor de mercado no pregão do lançamento não é um risco ignorável pelo mercado.
O dado que o mercado tende a ignorar no calor do evento: o 1T26 da Ferrari bateu estimativas com folga. EPS de US$ 2.69 contra estimativa de US$ 2.37, beat de 13.5%. Receita de US$ 2.14 bilhões, superando estimativas em 16.9%. A empresa está lucrativa, mantém order book que se estende para o final de 2027 e confirmou guidance para 2026. Nenhum desses números sugere empresa em crise.
O RACE operava na faixa de US$ 400–430 antes da queda acumulada dos últimos 12 meses. Com o tombo adicional do pregão do Luce, o papel testou níveis que não eram vistos desde 2024. A recuperação parcial nos dias seguintes não eliminou a fragilidade técnica de curto prazo.
Para o trader, a recuperação acima de US$ 370 com volume confirmado é o primeiro sinal de retomada de força. Abaixo de US$ 312. a leitura construtiva fica em xeque. O próximo catalisador concreto é o resultado do 2T26. previsto para 30 de julho de 2026, quando o mercado terá os primeiros dados de reservas do Luce.
Em 2022, quando a Ferrari apresentou o Purosangue, seu primeiro modelo de quatro portas, tecnicamente um SUV, a encarnação de tudo que Enzo Ferrari prometeu que jamais faria, a reação do mercado e dos fãs foi igualmente negativa. Ameaça à identidade. Traição ao legado. Destruição do mito.
O Purosangue V12 é hoje o modelo mais vendido da Ferrari. Desde 2023. já soma cerca de 6 mil unidades, com demanda superando oferta consistentemente. Para a RBC, o Luce está no mesmo ciclo: a Ferrari provoca os conservadores, o mercado pune, e a demanda real confirma que havia um comprador esperando do outro lado. A diferença que os analistas do Citi apontam é que o mercado de elétricos de ultra-luxo é menos óbvio que o de SUVs de luxo e Bentley, Lamborghini e Aston Martin estão recuando exatamente nessa direção.
A Ferrari revisou suas metas para 2030: a projeção anterior de portfólio sustentável foi recuada para 40% combustão, 40% híbridos e apenas 20% puramente elétricos. A própria empresa reduziu sua ambição elétrica antes mesmo do Luce estrear. Isso não aconteceu com o Purosangue, que não carregava o peso de uma transição tecnológica estrutural da indústria.
A queda refletiu três fatores simultâneos: decepção estética do mercado com o design, preocupações com a expansão para elétricos em momento que rivais recuam, e a declaração de Montezemolo amplificando o ruído negativo. O paper acumulava -27% em 12 meses antes mesmo do Luce.
É subjetivo, mas o mercado foi claro: nas redes sociais, comparações com Nissan Leaf e Toyota de baixo custo dominaram. O design assinado pelo estúdio LoveFrom, de Jony Ive, priorizou aerodinâmica e minimalismo, distanciamento deliberado da linguagem muscular tradicional da marca.
Ex-presidente da Ferrari de 1991 a 2014. Montezemolo foi o arquiteto dos anos de ouro com Schumacher na F1. Hoje integra o conselho da McLaren, rival direta. Sua declaração pedindo a retirada do cavalo rampante do Luce foi amplificada pela imprensa global e agravou o sentimento negativo no pregão.
É um argumento real, mas incompleto. O Purosangue era um risco estético e de identidade. O Luce é um risco estético, de identidade e estratégico, a Ferrari está apostando em elétricos enquanto Bentley e Lamborghini recuam. A demanda inicial pelo Luce é o indicador-chave a monitorar, segundo a RBC.
Não. O 1T26 bateu estimativas com EPS de US$ 2.69 versus consenso de US$ 2.37. A receita de US$ 2.14 bilhões superou projeções em 16.9%. A empresa mantém guidance e order book que se estende ao final de 2027. A crise é de percepção, não de resultado, por ora.
Com o papel a US$ 346.50 após a recuperação parcial, o suporte imediato fica entre US$ 330–335. A mínima de 52 semanas em US$ 312.51 é o piso histórico visível. Perda desse nível amplia significativamente o risco de continuidade da queda sem referência técnica abaixo.
O próximo resultado da Ferrari está previsto para 30 de julho de 2026. É o primeiro balanço pós-lançamento e deve trazer dados preliminares de reservas e demanda pelo Luce, o indicador que analistas da RBC identificam como decisivo para reposicionamento no papel.
O papel opera 33% abaixo da máxima de 52 semanas (US$ 519), com fundamentos intactos e resultados acima do consenso. O desconto pode ser oportunidade, ou início de repricing estrutural. A demanda do Luce e o resultado de julho são os catalisadores. Esta não é uma recomendação de investimento: avalie com seu assessor.
O mercado puniu a Ferrari com violência e depois devolveu parte do movimento, exatamente o que fez com o Purosangue em 2022. A diferença desta vez é que o Luce carrega uma camada de risco que o SUV não tinha: a Ferrari está apostando em elétricos enquanto concorrentes diretos recuam, e o design provocou uma rejeição estética de escala global inédita para a marca.
Os fundamentos, por enquanto, não confirmam crise. EPS batendo estimativas, guidance mantido, order book até 2027. A empresa está lucrativa e a estratégia de portfólio para 2030, 40% combustão, 40% híbrido, 20% elétrico não aposta tudo no Luce. É um passo, não uma virada.
Para o investidor de RACE, a data que importa agora é 30 de julho de 2026. É quando os números de demanda real pelo Luce começam a aparecer. Até lá, o gráfico pede cautela com novas entradas compradas abaixo de US$ 370 sem confirmação de volume. O papel que já caiu 33% do topo pode cair mais ou pode estar entregando um dos pontos de entrada mais assimétricos dos últimos anos no segmento de luxo global.