Publicado em: 2026-04-17
O Banco do Brasil (BBAS3) acumula alta de aproximadamente 12% no ano e chegou a encostar em R$ 27. alimentado pela expectativa de recuperação após o 4T25. A realidade que se desenha para o balanço de 13 de maio é bem menos animadora. Relatórios do Itaú BBA e do BTG Pactual projetam um 1T26 significativamente mais fraco, e as ações já recuam mais de 3% na semana, sinalizando que o mercado começa a reprecificar o risco.

O problema central não é conjuntural, é estrutural. A gestão do banco reconheceu que o BB dependia fortemente de hipotecas em sua carteira agrícola, enquanto concorrentes como o Itaú já haviam migrado para estruturas de alienação fiduciária, que oferecem maior proteção e execução mais rápida em caso de inadimplência. Corrigir essa fragilidade custa tempo e resultado. O campo agora está mais caro, mais inadimplente e mais imprevisível, e o BB carrega o maior risco setorial do sistema bancário.
O Itaú BBA projeta lucro de R$ 3.6 bilhões no 1T26. queda de 36% frente ao 4T25. com ROE de apenas 7.5%, contra 12.1% no período anterior. As despesas com provisões devem permanecer elevadas em cerca de R$ 17.4 bilhões, impulsionadas pela deterioração dos estágios de crédito em diferentes carteiras.
O BTG projeta lucro entre R$ 3 bilhões e R$ 3.5 bilhões no 1T26. de 15% a 30% abaixo do consenso de mercado. A margem financeira deve recuar cerca de 5% em relação ao trimestre anterior, e as provisões para perdas com crédito seguem em patamar elevado. O resultado do 4T25. de R$ 5.7 bilhões, foi inflado por um efeito tributário extraordinário pontual, o que distorce a base de comparação.
Instituição |
O Itaú BBA estima lucro anual de 2026 em R$ 21 bilhões, abaixo do piso do próprio guidance do banco.
O bloqueio no Estreito de Ormuz elevou o custo de fertilizantes e aumentou o risco no setor agrícola. O agronegócio representa cerca de um terço da carteira de crédito do banco. O timing é crítico: abril e maio são os meses de pagamento das últimas safras originadas sob critérios mais rigorosos, e o mercado vai monitorar cada dado de inadimplência com lupa.
Cerca de 94% a 95% da carteira agro segue adimplente, o que implica uma taxa de inadimplência entre 5% e 6%, patamar bem acima dos níveis observados nos últimos anos. O BTG avalia que essa deterioração ainda não chegou ao fim, contrariando a leitura mais otimista da CEO Tarciana Medeiros, que aponta inflexão no 2S26.
O prolongamento das tensões no Oriente Médio gera dúvidas sobre a oferta de fertilizantes e combustíveis como diesel e querosene de aviação, elevando os custos de produção e ameaçando a rentabilidade do produtor rural brasileiro. Mais custo para o produtor equivale a mais risco de calote para o BB.
Inadimplência acima de 90 dias ainda em deterioração na carteira rural
Alta do diesel e fertilizantes com conflito no Oriente Médio sem resolução
Inadimplência no campo atingiu 8.3% em março, preocupando o Ministério da Agricultura Pedidos de recuperação judicial de produtores rurais ainda crescentes
Plano Safra 2026/2027 em preparação em ambiente considerado desfavorável
As ações do Banco do Brasil são negociadas a cerca de 0.7 vez o valor patrimonial e com múltiplo P/L próximo de 6 vezes para 2026. O retorno total estimado pelo BTG, considerando valorização e dividendos, é de aproximadamente 5.5%.
O problema está na assimetria. Se o mercado reduzir em cerca de 20% a projeção de lucro para R$ 20 bilhões, a ação passaria a negociar a aproximadamente 7.3 vezes lucro, com dividend yield próximo de 4%, patamares que não parecem particularmente atraentes pelos padrões históricos do banco.
Considerando um payout de 30%, o mesmo praticado em 2025. o rendimento de dividendos ficaria em torno de 5%, abaixo da média histórica da bolsa de 6%. Para um papel com risco de revisão de guidance, esse prêmio é insuficiente.
O evento com investidores e analistas no dia 23 de abril deve ser um catalisador importante, especialmente em relação à trajetória da carteira de agronegócio, às tendências de provisões e ao timing de uma possível recuperação. O timing é crucial à medida que nos aproximamos do fim de abril, um período crítico para avaliar os pagamentos antecipados da última safra.
O que o mercado vai monitorar no evento:
Atualização do guidance de lucro para 2026
Sinalização sobre pico de inadimplência no agro
Cronograma de recuperação das provisões
Impacto do conflito no Oriente Médio na projeção do 2T26
Análise Técnica Semanal: BBAS3 Opera em Zona de Decisão nas Médias Móveis
No gráfico semanal, o BBAS3 negocia na faixa de R$ 24.09 a R$ 24.44. pressionado após testar a resistência em R$ 27.75. A média de 50 períodos em R$ 25.32 atua como resistência dinâmica imediata, enquanto a média de 200 períodos em R$ 22.99 sustenta o suporte estrutural de médio prazo. Para retomada do fluxo comprador, o papel precisa superar a faixa entre R$ 24.11 e R$ 26.92. A perda do suporte em R$ 23.27 abre espaço para buscar a média de 200 períodos em torno de R$ 21.86. nível que, se rompido, redefine o cenário técnico de médio prazo. Com o Dia do Investidor em 23 de abril e o balanço do 1T26 em 13 de maio, o gráfico vai seguir o fundamento.

O resultado do 4T25 foi de R$ 5.7 bilhões, mas incluiu um efeito tributário extraordinário e positivo que distorceu a base. Sem esse benefício, a comparação sequencial já seria negativa. O 1T26 deve refletir provisões ainda elevadas e margem financeira menor.
ROE é o retorno sobre o patrimônio líquido, ou seja, quanto o banco gera de lucro para cada real de capital próprio. Historicamente, o BB operou com ROE acima de 15%. Cair para 7.5% significa que o banco está destruindo valor relativo para os acionistas no curto prazo.
É o principal vetor de risco, mas não o único. A margem financeira também está pressionada, a carteira de crédito cresce em ritmo mais lento, e os requisitos regulatórios de capital exigem postura conservadora. O conjunto deteriora o resultado antes mesmo de considerar o agro.
Sim. O Itaú BBA já projeta R$ 21 bilhões, abaixo do piso do guidance de R$ 22 bilhões. O BTG também vê riscos de revisão. O Dia do Investidor de 23 de abril será o momento em que o banco pode ou não ajustar oficialmente as projeções.
O choque no diesel e nos fertilizantes eleva o custo do produtor rural, que é o principal tomador de crédito agrícola do banco. Com margens mais comprimidas, o risco de inadimplência aumenta, o que força o banco a provisionar mais, consumindo resultado.
Com lucro projetado em torno de R$ 20 a 22 bilhões e payout de 30%, o yield fica entre 4% e 5%, bem abaixo da Selic e da média histórica do próprio papel. Para o BTG e o Itaú BBA, o risco não está adequadamente remunerado no preço atual.
BTG e Itaú BBA convergem na mesma recomendação: Itaú Unibanco (ITUB4) como único grande banco com recomendação de compra. O BB segue com neutro nos dois bancos, e o Bradesco aparece como segunda preferência na margem.
O BBAS3 enfrenta um 1T26 estruturalmente mais fraco, com provisões elevadas, margem pressionada e o agronegócio operando sob choque de custos externos. A tese de recuperação existe, mas está condicionada a dados que o mercado ainda não tem: a qualidade dos pagamentos de safra em abril e maio. O Dia do Investidor de 23 de abril é o evento de curto prazo mais relevante para definir se o guidance de 2026 se sustenta ou se o banco entrará em modo de revisão. Até lá, a postura dos principais analistas é clara: cautela.