Publicado em: 2026-07-13
Atualizado em: 2026-07-14
As ações Grupo Mateus GMAT3 acumulam desvalorização superior a 50% nos últimos doze meses e figuram entre os papéis mais comentados da bolsa de valores brasileira. Um erro contábil de R$ 1,1 bilhão na avaliação dos estoques, revelado no fim de 2025, abalou a confiança dos investidores e deu início a uma sequência de eventos negativos que ainda não se dissipou.
A resposta curta para quem pergunta se as ações Grupo Mateus GMAT3 valem a pena é que o papel oferece potencial de valorização a preços descontados, mas carrega riscos operacionais, fiscais e de governança que exigem cautela. A seguir, o artigo detalha cada um desses fatores para que o investidor forme sua própria avaliação.

O Grupo Mateus é a maior rede varejista de alimentos de capital inteiramente nacional no Brasil. Fundada em 1986 por Ilson Mateus Rodrigues na cidade de Balsas, no Maranhão, a companhia cresceu a partir de uma mercearia e transformou o negócio em uma operação com mais de 310 lojas espalhadas pelo Norte e Nordeste do país, incluindo formatos de atacarejo, supermercado, eletro e conveniência.
O papel GMAT3 começou 2026 cotado na faixa de R$ 4,49 e, até meados de julho, opera na casa de R$ 3,93. No acumulado de doze meses, a queda ultrapassa 50%, o que levou o valor de mercado da companhia para cerca de R$ 9,1 bilhões. Para contextualizar, na época do IPO em 2020 a empresa chegou a captar mais de R$ 4,6 bilhões e atraiu demanda cinco vezes superior à oferta.
Essa trajetória de baixa coincide com um momento difícil para o varejo alimentar brasileiro. O cenário do Ibovespa em 2026 já reflete a combinação de Selic elevada, deflação de alimentos em certas categorias e maior endividamento das famílias, fatores que pesam sobre todo o setor de consumo.
Duas controvérsias dominaram o noticiário sobre a companhia e ajudam a explicar a desconfiança do mercado.
Em novembro de 2025, o balanço do terceiro trimestre revelou que os estoques do Grupo Mateus estavam superavaliados em R$ 1,1 bilhão. O valor registrado era de R$ 6 bilhões e, após a correção, caiu para R$ 4,9 bilhões. A falha foi atribuída a problemas nos cálculos do custo médio das mercadorias vendidas, um dos indicadores mais sensíveis no varejo.
O impacto imediato foi uma redução de quase R$ 695 milhões no patrimônio líquido e uma queda de 84% na reserva de lucros, que passou de R$ 824 milhões para R$ 130 milhões. As ações despencaram cerca de 25% em sete pregões após a divulgação, eliminando aproximadamente R$ 2,5 bilhões em valor de mercado.
O episódio trouxe à tona questionamentos mais antigos sobre os controles internos da companhia. A auditoria Grant Thornton já havia apontado 42 deficiências moderadas nos processos desde 2021. A empresa informou que investiu R$ 15 milhões em inventários e segurança, adotando verificações mensais no lugar de amostragens esporádicas.
Em junho de 2026, o Grupo Mateus informou que a Receita Federal emitiu auto de infração contra o Armazém Mateus, subsidiária operacional da companhia. A cobrança questiona o tratamento dado aos créditos presumidos de ICMS na apuração do IRPJ e da CSLL referentes a 2022 e 2023. O valor principal é de R$ 492,89 milhões; com multas e juros, chega a R$ 1,28 bilhão. A empresa classificou a contingência como de perda possível e afirmou que tem fundamentos jurídicos para contestar. Para uma análise mais detalhada desse evento, vale consultar a autuação bilionária da Receita e seus desdobramentos.
O mercado reagiu com volatilidade ao anúncio. O papel chegou a cair quase 9% no início do pregão em que a notícia veio a público, embora tenha reduzido as perdas ao longo da sessão. Essa pressão dupla, combinando o resíduo da crise contábil com a nova frente fiscal, contribuiu para manter o sentimento negativo em torno das ações Grupo Mateus GMAT3.
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Apesar das polêmicas, a operação segue em movimento. No primeiro trimestre de 2026, a receita líquida avançou 12,9% na comparação anual e atingiu R$ 9,4 bilhões, impulsionada pela consolidação do Novo Atacarejo, pelo crescimento do atacado B2B e pelo segmento de eletro. Porém, o lucro líquido atribuído aos controladores caiu 21,8%, para R$ 212,9 milhões, reflexo de despesas que cresceram mais rápido que a receita.
O indicador de vendas nas mesmas lojas ficou negativo em 7,3%. A companhia atribuiu o resultado à deflação de alimentos e ao endividamento das famílias, além de uma decisão estratégica de preservar margens em vez de perseguir volume.
A expansão física continuou em ritmo moderado. Até meados de 2026, o Grupo Mateus havia inaugurado dez novas lojas de varejo alimentar, chegando a 312 unidades em operação. Cinco dessas aberturas ocorreram no Maranhão, reforçando a estratégia de adensamento no estado que concentra a base da operação. Outras lojas foram abertas em Alagoas, Piauí, Pernambuco e Pará. Para quem deseja entender como funciona o índice Ibovespa, no qual GMAT3 está inserida, vale observar que o setor de consumo tem sido um dos mais pressionados no período.
Paralelamente à expansão, a empresa intensificou cortes. Cerca de 6.000 funcionários foram desligados entre dezembro de 2025 e março de 2026, dentro de programas internos de racionalização e ganho de eficiência. A companhia informou que, desconsiderando rescisões não recorrentes, as despesas operacionais de março caíram 0,9 ponto percentual em relação à média do trimestre.
No lado financeiro, o ciclo de conversão de caixa melhorou para 40 dias, uma redução de 16 dias frente ao primeiro trimestre de 2025. A dívida líquida recuou para R$ 735,9 milhões, e a alavancagem medida pela relação dívida líquida/EBITDA pré-IFRS 16 caiu para 0,33 vez, contra 0,41 vez no encerramento de 2025. A baixa alavancagem é apontada por analistas como um dos pontos de resiliência da tese.
As opiniões do mercado estão divididas, o que reforça a necessidade de análise individual antes de qualquer decisão.
O Banco Safra reduziu o preço-alvo de R$ 6,00 para R$ 4,50, mantendo recomendação neutra. A revisão incorpora premissas de crescimento do PIB mais baixas, Selic média elevada e ritmo de abertura de lojas mais lento. O Safra avalia que a margem operacional deve recuar em 2026 e seguir pressionada nos anos seguintes, com iniciativas de corte de custos surtindo efeito mais relevante somente a partir de 2027.
Na direção contrária, o BTG Pactual manteve GMAT3 como sua principal recomendação no varejo alimentar, destacando a combinação de alavancagem baixa, valuation descontado e presença em regiões onde os concorrentes nacionais de maior porte têm menor penetração. Para quem compara diferentes classes de ativos, a diferença entre o mercado de forex e ações pode ser um ponto de partida relevante antes de definir alocação.

JPMorgan rebaixou a recomendação para underweight, enquanto UBS rebaixou de compra para neutro e cortou o alvo para R$ 5,50. O Bradesco BBI, por sua vez, classificou os resultados como poluídos pelo ruído contábil, dificultando a leitura da margem real do negócio.
Diante dessa dispersão de opiniões, o investidor que analisa as ações Grupo Mateus GMAT3 precisa ponderar a assimetria entre o desconto de mercado e os riscos reais de execução. A empresa opera em regiões onde a competição é menos acirrada e possui baixo endividamento, mas enfrenta pressões simultâneas de governança, resultado fiscal e ritmo de maturação das lojas adquiridas na operação com o Novo Atacarejo.
O Grupo Mateus atravessa um dos momentos mais desafiadores desde sua abertura de capital. A combinação de erro contábil bilionário, autuação fiscal e resultados operacionais pressionados colocou o papel em patamares de preço que não eram vistos desde o IPO. Ao mesmo tempo, a baixa alavancagem financeira, a geração de caixa positiva e a posição dominante em mercados regionais criam um contraponto que mantém a tese de investimento viva para parte dos analistas.
Para quem avalia se as ações Grupo Mateus GMAT3 valem a pena, a decisão depende fundamentalmente da tolerância ao risco e da convicção de que a companhia conseguirá superar os desafios de governança e eficiência nos próximos trimestres. Monitorar os resultados do segundo trimestre de 2026, previstos para agosto, e o desdobramento da contestação à autuação da Receita Federal será essencial para calibrar essa avaliação.
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É a maior rede varejista de alimentos de capital nacional, com sede no Maranhão. Suas ações são negociadas sob o código GMAT3 na B3.
A companhia identificou uma superavaliação de R$ 1,1 bilhão nos estoques do balanço de 2024, causada por falhas no cálculo do custo das mercadorias.
Não. A empresa classificou como perda possível e informou que pretende contestar judicialmente a cobrança de R$ 1,28 bilhão.
Até meados de 2026, a companhia operava 312 lojas de varejo alimentar, além de mais de 300 unidades de conveniência.
A relação dívida líquida/EBITDA pré-IFRS 16 encerrou o 1T26 em 0,33 vez, considerada baixa para o setor varejista.