Publicado em: 2026-08-14
Atualizado em: 2026-08-15
A queda de 64% no lucro da Suzano tem três causas principais: a valorização do real frente ao dólar, o menor volume de vendas de celulose e o aumento dos custos de produção. A companhia reportou lucro líquido de R$ 1,807 bilhão no segundo trimestre de 2026, ante R$ 5,012 bilhões no mesmo período de 2025. A receita líquida somou R$ 11,59 bilhões, recuo de 13% na base anual.
Há, porém, um detalhe que muda a interpretação do número. Boa parte da diferença não veio da operação, e sim da linha financeira. No 2T25, o resultado financeiro líquido havia registrado receita de R$ 4,425 bilhões, efeito contábil do câmbio sobre a dívida. Neste trimestre, ficou praticamente zerado, em despesa de R$ 10 milhões. Sozinho, esse contraste explica a maior parte da variação do lucro.

A Suzano é uma exportadora com receita majoritariamente em dólar e dívida também denominada em moeda estrangeira. Quando o real se valoriza, cada dólar faturado se converte em menos reais, e a receita encolhe mesmo com volumes estáveis. No trimestre, o dólar médio recuou 11% frente ao real na comparação anual.
Esse mesmo movimento tem efeito duplo. Ele reduz a receita convertida, mas também diminui o valor em reais da dívida em dólar, o que aparece como ganho ou perda contábil no resultado financeiro. Por isso, exportadoras costumam apresentar lucros voláteis sem que a operação tenha mudado de forma relevante. Entender por que o dólar caiu tanto ajuda a separar efeito cambial de desempenho real.
As vendas de celulose totalizaram 2,897 milhões de toneladas, queda de 11% ante o 2T25, principalmente pela redução dos embarques para a Ásia. As vendas de papel somaram 406 mil toneladas, recuo de apenas 1%. O negócio de celulose seguiu como principal gerador de receita, representando 76% do faturamento consolidado.
O preço, por outro lado, jogou a favor. Os preços médios da celulose em dólar subiram 8% na comparação anual, o que compensou parcialmente a perda de volume. Segundo a companhia, o mercado global de celulose demonstrou resiliência mesmo diante do aumento das tensões geopolíticas e da pressão sobre custos da cadeia produtiva.
Essa combinação de preço em alta e volume em queda é típica de mercados de matéria prima em ajuste. A dinâmica se repete em outros setores exportadores brasileiros, como se observa no comportamento das ações da Vale e do minério de ferro, igualmente sensíveis à demanda asiática.
Depende da base de comparação. Contra o 2T25, o Ebitda ajustado caiu 23%, para R$ 4,705 bilhões, e a margem Ebitda encolheu de 46% para 41%. A geração de caixa operacional somou R$ 2,885 bilhões, queda de 30% em um ano.
Contra o primeiro trimestre de 2026, porém, houve melhora sequencial, com crescimento de 3% no Ebitda ajustado, sustentado pelo avanço dos preços e pelo aumento dos volumes vendidos. Isso indica que o ponto mais baixo do ciclo pode ter ficado para trás na operação, ainda que o câmbio continue mascarando esse movimento no lucro contábil.
O endividamento merece atenção. A alavancagem em reais passou de 3,0 para 3,3 vezes na comparação anual e, em dólares, de 3,1 para 3,4 vezes, reflexo de um Ebitda menor combinado ao efeito cambial sobre a dívida. A dívida líquida em dólar ficou em US$ 12,8 bilhões, redução de 2% ante o trimestre anterior. Para traders que acompanham a tese de matérias primas por trás de papéis como esse, a página de commodities da EBC reúne as especificações de instrumentos como XAUUSD, Brent e WTI.
Empresas de matéria prima têm o resultado determinado por três variáveis que a administração não controla: preço internacional, taxa de câmbio e demanda global. A gestão atua sobre custo, volume e estrutura de capital, mas o lucro final depende de fatores externos. Por isso, comparações anuais isoladas dizem pouco.
O setor de papel e celulose no Brasil ilustra bem esse padrão, como se vê também no desempenho recente da Klabin e suas ações. A leitura mais útil costuma vir da observação simultânea de preço da commodity, câmbio e alavancagem, tema explorado na relação entre crescimento global e mercado de commodities.
A primeira métrica a observar é o preço internacional da celulose de fibra curta, referência direta para 76% da receita da companhia. Preço em alta com volume estabilizado é a combinação que recompõe margem mais rápido do que qualquer iniciativa interna de corte de custo.
A segunda é a trajetória do dólar. Como a receita é majoritariamente em moeda estrangeira e a dívida líquida está em US$ 12,8 bilhões, o câmbio afeta simultaneamente o faturamento convertido e o valor da obrigação. Um real persistentemente forte comprime as duas pontas do resultado ao mesmo tempo.

A terceira é a alavancagem. Em 3,4 vezes em dólar, a companhia opera acima do que costuma ser considerado confortável para o setor, o que limita a flexibilidade para novos investimentos e para distribuição de proventos. A redução de 2% na dívida líquida frente ao trimestre anterior é um sinal na direção certa, ainda que modesto.
Quem acompanha SUZB3 com horizonte mais longo tende a dar peso maior ao custo caixa de produção por tonelada, indicador que define a competitividade da Suzano contra produtores de outras geografias e que sustenta a margem mesmo em cenários de preço deprimido.
O tombo de 64% no lucro de SUZB3 parece dramático, mas exige contexto. A operação piorou na comparação anual por volume e custo, e melhorou na comparação trimestral por preço e volume. A maior parte da diferença veio da linha financeira, altamente sensível ao câmbio. Para quem investe em exportadoras, o exercício útil é acompanhar o Ebitda ajustado e a geração de caixa em vez do lucro líquido isolado, além de entender quais são as commodities mais negociadas do mundo e como seus ciclos se comportam.
Para traders que querem exposição direta ao tema de ações listadas no exterior em vez de apenas ao ciclo de matérias primas via bolsa brasileira, a página de stock CFDs da EBC apresenta os instrumentos disponíveis, incluindo AMZN, GOOGL e TSLA, com execução de nível institucional e acesso via MT4, MT5 ou o aplicativo da EBC. Consulte as especificações atuais de cada contrato antes de operar. Operar CFDs envolve risco de perda de capital.
A companhia divulgou os resultados do segundo trimestre de 2026 na quarta-feira, 12 de agosto de 2026.
É o lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização, excluindo itens não recorrentes que distorcem a comparação entre períodos.
Indica que a dívida líquida equivale a 3,4 vezes o Ebitda ajustado dos últimos doze meses da companhia.
A Ásia é o principal destino dos embarques, e a redução dessa demanda foi a causa central da queda de volume no trimestre.
Não. Prejudica exportadoras com receita em dólar, mas beneficia importadoras e empresas com dívida em moeda estrangeira.