Publicado em: 2026-02-21
A desdolarização deixou de ser um conceito acadêmico para se tornar uma variável concreta na análise macroeconômica global. Movimentos recentes de bancos centrais, acordos comerciais bilaterais e aumento acelerado das reservas de ouro indicam uma tentativa coordenada de reduzir a dependência do dólar como moeda de reserva e meio de liquidação internacional.
Apesar disso, a hegemonia do dólar ainda repousa sobre pilares estruturais sólidos: profundidade do mercado de títulos do Tesouro americano, liquidez global, previsibilidade institucional e confiança histórica. A questão central não é se o dólar vai desaparecer, mas se sua dominância será gradualmente diluída ao longo da próxima década.

Desdolarização é o processo pelo qual países reduzem o uso do dólar em reservas internacionais, comércio exterior e transações financeiras. O que significa desdolarização na prática? Significa substituir o dólar por moedas locais, ouro ou outras divisas estratégicas em contratos comerciais, acordos bilaterais e reservas cambiais.
Esse movimento ganhou força após sanções financeiras impostas a grandes economias, que evidenciaram o risco geopolítico de depender excessivamente do sistema financeiro baseado no dólar.
Na prática, a desdolarização envolve:
Aumento das reservas de ouro
Uso de moedas locais no comércio bilateral
Criação de sistemas alternativos de compensação internacional
Redução da participação do dólar nas reservas cambiais
No entanto, reduzir o uso do dólar é muito diferente de substituí-lo completamente. A infraestrutura financeira global ainda é amplamente dolarizada.
Sim, mas de forma gradual e não disruptiva.
O dólar ainda representa a maior fatia das reservas internacionais globais, mas sua participação caiu ao longo dos últimos anos. Essa redução não ocorreu por colapso da moeda, mas por diversificação estratégica. Bancos Centrais passaram a comprar mais ouro e aumentar exposição a outras moedas fortes.
A dinâmica é importante: não se trata de abandono do dólar, mas de redução marginal da concentração de risco.
Enquanto isso, o mercado de Treasuries continua sendo o mais profundo e líquido do mundo. Em momentos de estresse global, o fluxo de capital ainda busca o dólar como porto seguro.
As reservas de ouro tornaram-se um componente estratégico de soberania financeira. Ao contrário das reservas em dólar, o ouro não depende de um sistema financeiro específico nem está sujeito a bloqueios externos.
O aumento nas reservas de ouro reflete três fatores principais:
Proteção contra riscos geopolíticos
Diversificação cambial
Hedge contra inflação estrutural
O ouro funciona como ativo neutro. Em cenários de fragmentação monetária, ele ganha importância como reserva de valor universal.
Esse movimento reforça a narrativa da desdolarização, mas não implica automaticamente o fim do dólar. Ele sinaliza prudência estratégica.

Nem sempre. O dólar em queda pode resultar de múltiplos fatores cíclicos, não necessariamente estruturais.
Entre os principais motivos da queda do dólar estão:
Expectativas de corte de juros pelo Federal Reserve
Redução do diferencial de juros em relação a outras economias
Aumento do apetite global por risco
Ajustes no déficit fiscal americano
Reequilíbrio comercial
O que faz o dólar cair no curto prazo geralmente está ligado a política monetária e fluxo de capitais, não a uma mudança estrutural no sistema monetário internacional.
É fundamental diferenciar fraqueza cíclica de declínio estrutural. Até o momento, a evidência aponta para ciclos, não para colapso.
É ambos.
Do ponto de vista econômico, a concentração excessiva em uma única moeda gera vulnerabilidade. Diversificar reduz risco sistêmico.
Do ponto de vista geopolítico, a dependência do dólar implica exposição ao sistema financeiro americano e às suas regras. Países buscam autonomia estratégica.
Entretanto, substituir o dólar exige:
Confiança institucional equivalente
Profundidade de mercado
Livre conversibilidade
Segurança jurídica
Sistema financeiro robusto
Poucas moedas oferecem esse conjunto completo de atributos.
A resposta depende do perfil do investidor e do horizonte temporal.
Comprar dólar pode fazer sentido como:
Proteção cambial
Diversificação internacional
Hedge contra risco fiscal doméstico
Estratégia de preservação patrimonial
Por outro lado, se o dólar estiver em queda devido a cortes de juros ou melhora do cenário global, a valorização pode ser limitada no curto prazo.
A análise deve considerar:
Tendência da política monetária americana
Fluxos de capital global
Risco fiscal dos EUA
Estabilidade da economia local do investidor
A decisão não deve ser guiada por manchetes sobre desdolarização, mas por fundamentos macroeconômicos.
Em teoria, sim. Na prática, é improvável no curto e médio prazo.
O dólar é dominante porque:
É amplamente aceito no comércio internacional
Está ancorado no maior mercado de dívida soberana do mundo
Possui liquidez incomparável
É respaldado por instituições consolidadas
Criar uma alternativa funcional exige décadas de desenvolvimento institucional e confiança internacional.
Mesmo que a participação do dólar diminua, isso não implica seu desaparecimento como moeda de reserva central.

Sim, especialmente se tensões geopolíticas se intensificarem.
O mundo pode caminhar para um sistema mais multipolar, no qual:
O dólar continua dominante
Outras moedas ganham espaço regional
O ouro reforça seu papel estratégico
Acordos bilaterais reduzem intermediação em dólar
Esse cenário não elimina o dólar, mas reduz sua concentração.
Alguns indicadores serão determinantes:
Participação do dólar nas reservas globais
Volume de comércio bilateral fora do dólar
Compras de ouro por bancos centrais
Política fiscal dos EUA
Confiança nos Treasuries
Enquanto o mercado de títulos americano continuar sendo o mais líquido e confiável, o dólar manterá vantagem estrutural.
A transição, se ocorrer, será lenta e gradual.
Não necessariamente. A diversificação gradual reduz riscos sistêmicos. Uma transição abrupta poderia gerar volatilidade, mas o movimento atual ocorre de forma progressiva.
Não. O ouro complementa reservas, mas não oferece a mesma liquidez para transações comerciais e financeiras globais.
Sim, especialmente aqueles expostos a sanções ou volatilidade cambial. Eles buscam maior autonomia monetária e estabilidade estratégica.
É improvável no horizonte previsível. A infraestrutura financeira global ainda depende fortemente da liquidez e profundidade dos mercados americanos.
Quedas cíclicas fazem parte do regime cambial. O foco deve estar na tendência de longo prazo e na estratégia de alocação.
A desdolarização não é um evento, mas um processo. Ele reflete um mundo mais fragmentado, mais cauteloso e mais estratégico na gestão de reservas internacionais.
O dólar continua sendo a principal moeda de reserva porque combina liquidez, profundidade de mercado e credibilidade institucional. No entanto, sua participação tende a diminuir gradualmente à medida que bancos centrais diversificam ativos e ampliam reservas de ouro.
O fim da hegemonia do dólar não parece iminente. O que se observa é uma reconfiguração lenta do sistema monetário global, rumo a maior multipolaridade.
Para investidores e empresas, o essencial é compreender que movimentos estruturais exigem análise de longo prazo. Decisões sobre comprar dólar hoje devem considerar fundamentos macroeconômicos, não apenas narrativas geopolíticas.
O dólar pode perder participação relativa. Mas, por ora, permanece central na engrenagem financeira mundial.
Isenção de responsabilidade: Este material é apenas para fins informativos gerais e não deve ser considerado como aconselhamento financeiro, de investimento ou outro. Nenhuma opinião dada no material constitui uma recomendação da EBC ou do autor de que qualquer investimento, segurança, transação ou estratégia de investimento específica seja adequada para qualquer pessoa específica.