Desdolarização global: o fim do dólar está próximo?
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Desdolarização global: o fim do dólar está próximo?

Autor:Pietro Costa

Publicado em: 2026-02-21

A desdolarização deixou de ser um conceito acadêmico para se tornar uma variável concreta na análise macroeconômica global. Movimentos recentes de bancos centrais, acordos comerciais bilaterais e aumento acelerado das reservas de ouro indicam uma tentativa coordenada de reduzir a dependência do dólar como moeda de reserva e meio de liquidação internacional.


Apesar disso, a hegemonia do dólar ainda repousa sobre pilares estruturais sólidos: profundidade do mercado de títulos do Tesouro americano, liquidez global, previsibilidade institucional e confiança histórica. A questão central não é se o dólar vai desaparecer, mas se sua dominância será gradualmente diluída ao longo da próxima década.


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O que é desdolarização e o que significa na prática?


Desdolarização é o processo pelo qual países reduzem o uso do dólar em reservas internacionais, comércio exterior e transações financeiras. O que significa desdolarização na prática? Significa substituir o dólar por moedas locais, ouro ou outras divisas estratégicas em contratos comerciais, acordos bilaterais e reservas cambiais.


Esse movimento ganhou força após sanções financeiras impostas a grandes economias, que evidenciaram o risco geopolítico de depender excessivamente do sistema financeiro baseado no dólar.


Na prática, a desdolarização envolve:


  • Aumento das reservas de ouro

  • Uso de moedas locais no comércio bilateral

  • Criação de sistemas alternativos de compensação internacional

  • Redução da participação do dólar nas reservas cambiais

No entanto, reduzir o uso do dólar é muito diferente de substituí-lo completamente. A infraestrutura financeira global ainda é amplamente dolarizada.


A participação do dólar como moeda de reserva está realmente caindo?


Sim, mas de forma gradual e não disruptiva.


O dólar ainda representa a maior fatia das reservas internacionais globais, mas sua participação caiu ao longo dos últimos anos. Essa redução não ocorreu por colapso da moeda, mas por diversificação estratégica. Bancos Centrais passaram a comprar mais ouro e aumentar exposição a outras moedas fortes.


A dinâmica é importante: não se trata de abandono do dólar, mas de redução marginal da concentração de risco.


Enquanto isso, o mercado de Treasuries continua sendo o mais profundo e líquido do mundo. Em momentos de estresse global, o fluxo de capital ainda busca o dólar como porto seguro.


Por que as reservas de ouro estão aumentando?


As reservas de ouro tornaram-se um componente estratégico de soberania financeira. Ao contrário das reservas em dólar, o ouro não depende de um sistema financeiro específico nem está sujeito a bloqueios externos.


O aumento nas reservas de ouro reflete três fatores principais:


  1. Proteção contra riscos geopolíticos

  2. Diversificação cambial

  3. Hedge contra inflação estrutural

O ouro funciona como ativo neutro. Em cenários de fragmentação monetária, ele ganha importância como reserva de valor universal.


Esse movimento reforça a narrativa da desdolarização, mas não implica automaticamente o fim do dólar. Ele sinaliza prudência estratégica.


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O dólar em queda indica perda de hegemonia?


Nem sempre. O dólar em queda pode resultar de múltiplos fatores cíclicos, não necessariamente estruturais.


Entre os principais motivos da queda do dólar estão:


  • Expectativas de corte de juros pelo Federal Reserve

  • Redução do diferencial de juros em relação a outras economias

  • Aumento do apetite global por risco

  • Ajustes no déficit fiscal americano

  • Reequilíbrio comercial

O que faz o dólar cair no curto prazo geralmente está ligado a política monetária e fluxo de capitais, não a uma mudança estrutural no sistema monetário internacional.


É fundamental diferenciar fraqueza cíclica de declínio estrutural. Até o momento, a evidência aponta para ciclos, não para colapso.


A desdolarização é um fenômeno econômico ou geopolítico?


É ambos.


Do ponto de vista econômico, a concentração excessiva em uma única moeda gera vulnerabilidade. Diversificar reduz risco sistêmico.


Do ponto de vista geopolítico, a dependência do dólar implica exposição ao sistema financeiro americano e às suas regras. Países buscam autonomia estratégica.


Entretanto, substituir o dólar exige:


  • Confiança institucional equivalente

  • Profundidade de mercado

  • Livre conversibilidade

  • Segurança jurídica

  • Sistema financeiro robusto

Poucas moedas oferecem esse conjunto completo de atributos.


Vale a pena comprar dólar hoje?


A resposta depende do perfil do investidor e do horizonte temporal.


Comprar dólar pode fazer sentido como:


  • Proteção cambial

  • Diversificação internacional

  • Hedge contra risco fiscal doméstico

  • Estratégia de preservação patrimonial

Por outro lado, se o dólar estiver em queda devido a cortes de juros ou melhora do cenário global, a valorização pode ser limitada no curto prazo.


A análise deve considerar:


  • Tendência da política monetária americana

  • Fluxos de capital global

  • Risco fiscal dos EUA

  • Estabilidade da economia local do investidor

A decisão não deve ser guiada por manchetes sobre desdolarização, mas por fundamentos macroeconômicos.


O sistema financeiro global pode funcionar sem o dólar?


Em teoria, sim. Na prática, é improvável no curto e médio prazo.


O dólar é dominante porque:


  • É amplamente aceito no comércio internacional

  • Está ancorado no maior mercado de dívida soberana do mundo

  • Possui liquidez incomparável

  • É respaldado por instituições consolidadas

Criar uma alternativa funcional exige décadas de desenvolvimento institucional e confiança internacional.


Mesmo que a participação do dólar diminua, isso não implica seu desaparecimento como moeda de reserva central.


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A fragmentação monetária pode acelerar?


Sim, especialmente se tensões geopolíticas se intensificarem.


O mundo pode caminhar para um sistema mais multipolar, no qual:


  • O dólar continua dominante

  • Outras moedas ganham espaço regional

  • O ouro reforça seu papel estratégico

  • Acordos bilaterais reduzem intermediação em dólar

Esse cenário não elimina o dólar, mas reduz sua concentração.


O que observar nos próximos anos?


Alguns indicadores serão determinantes:


  • Participação do dólar nas reservas globais

  • Volume de comércio bilateral fora do dólar

  • Compras de ouro por bancos centrais

  • Política fiscal dos EUA

  • Confiança nos Treasuries

Enquanto o mercado de títulos americano continuar sendo o mais líquido e confiável, o dólar manterá vantagem estrutural.


A transição, se ocorrer, será lenta e gradual.


Perguntas Frequentes


A desdolarização pode causar crise financeira global?

Não necessariamente. A diversificação gradual reduz riscos sistêmicos. Uma transição abrupta poderia gerar volatilidade, mas o movimento atual ocorre de forma progressiva.


O aumento das reservas de ouro substitui totalmente o dólar?

Não. O ouro complementa reservas, mas não oferece a mesma liquidez para transações comerciais e financeiras globais.


Países emergentes lideram a desdolarização?

Sim, especialmente aqueles expostos a sanções ou volatilidade cambial. Eles buscam maior autonomia monetária e estabilidade estratégica.


O dólar pode perder totalmente o status de moeda de reserva?

É improvável no horizonte previsível. A infraestrutura financeira global ainda depende fortemente da liquidez e profundidade dos mercados americanos.


Investidores devem temer a queda do dólar?

Quedas cíclicas fazem parte do regime cambial. O foco deve estar na tendência de longo prazo e na estratégia de alocação.


Conclusão


A desdolarização não é um evento, mas um processo. Ele reflete um mundo mais fragmentado, mais cauteloso e mais estratégico na gestão de reservas internacionais.


O dólar continua sendo a principal moeda de reserva porque combina liquidez, profundidade de mercado e credibilidade institucional. No entanto, sua participação tende a diminuir gradualmente à medida que bancos centrais diversificam ativos e ampliam reservas de ouro.


O fim da hegemonia do dólar não parece iminente. O que se observa é uma reconfiguração lenta do sistema monetário global, rumo a maior multipolaridade.


Para investidores e empresas, o essencial é compreender que movimentos estruturais exigem análise de longo prazo. Decisões sobre comprar dólar hoje devem considerar fundamentos macroeconômicos, não apenas narrativas geopolíticas.


O dólar pode perder participação relativa. Mas, por ora, permanece central na engrenagem financeira mundial.



Isenção de responsabilidade: Este material é apenas para fins informativos gerais e não deve ser considerado como aconselhamento financeiro, de investimento ou outro. Nenhuma opinião dada no material constitui uma recomendação da EBC ou do autor de que qualquer investimento, segurança, transação ou estratégia de investimento específica seja adequada para qualquer pessoa específica.