Publicado em: 2026-04-03
Steven Cohen é um dos gestores de fundos hedge mais bem-sucedidos e controversos da história de Wall Street. Fundador da SAC Capital Advisors e da Point72 Asset Management, Cohen construiu uma fortuna estimada em mais de US$ 17 bilhões operando com uma abordagem agressiva de gestão ativa de portfólio baseada em análise fundamentalista profunda, velocidade de execução e tolerância calculada ao risco.
Nascido em 11 de junho de 1956, em Great Neck, Nova York, Cohen é um trader nato que começou sua carreira com apostas de pôquer na adolescência e chegou a gerir mais de US$ 15 bilhões em ativos na SAC Capital antes de enfrentar uma das investigações de uso de informação privilegiada mais abrangentes da história do mercado americano. Sua capacidade de se reinventar e voltar ao topo com a Point72 o tornou um estudo de caso sobre resiliência e adaptação nos mercados financeiros.

Steven Cohen cresceu em uma família de classe média em Long Island. Seu pai trabalhava no setor têxtil em Manhattan e sua mãe lecionava piano. Desde cedo, Cohen desenvolveu afinidade por números e por jogos de estratégia, em especial o pôquer, que ele próprio credita como escola de gestão de risco e leitura de probabilidades.
Formou-se em economia pela Universidade da Pensilvânia em 1978 e, no mesmo ano, entrou como trader júnior na corretora Gruntal & Co., em Nova York. O início foi imediato: no primeiro dia de trabalho, Cohen relata ter lucrado US$ 8 mil operando opções. Nos anos seguintes, tornou-se o principal gerador de receita da mesa de operações da Gruntal, produzindo entre US$ 100 mil e US$ 300 mil por dia no auge de sua atuação na corretora.
Em 1992, com 36 anos, Cohen deixou a Gruntal e fundou a SAC Capital Advisors com US$ 20 milhões, sendo metade de capital próprio e metade de investidores externos. O nome da gestora derivava de suas iniciais: Steven A. Cohen. A empresa começou operando em Nova York e depois transferiu sua sede para Stamford, Connecticut, em um campus à beira-mar que se tornaria famoso no setor.
A SAC Capital ficou conhecida por um estilo de operação extremamente ativo. Enquanto a maioria dos fundos hedge girava suas carteiras poucas vezes ao ano, a SAC chegava a rotacionar posições com muito mais frequência, gerando volumes de negociação que chegavam a representar parcela relevante do total diário das bolsas americanas. Essa velocidade era parte central da estratégia: encontrar e explorar ineficiências de mercado antes de qualquer outro participante.
Cohen estruturou a SAC em torno de um modelo de 'pods', unidades independentes lideradas por gestores de portfólio com autonomia para operar dentro de limites de risco definidos. Cada gestor tinha acesso a analistas de setor dedicados e era responsável por seus próprios resultados. Cohen atuava como gestor de portfólio principal e também como supervisor da operação como um todo.
A filosofia de investimento combinava análise fundamentalista profunda com uma leitura atenta do cenário macroeconômico global. Cohen valorizava o que chamava de 'edge', ou seja, uma vantagem informacional legítima sobre determinado setor ou empresa. Analistas eram incentivados a fazer contatos com especialistas do setor, fornecedores, clientes e ex-executivos para construir uma visão diferenciada sobre as empresas.
Os retornos da SAC Capital foram excepcionais durante anos. O fundo entregou retornos anuais médios de 30% a 50% ao longo de sua trajetória, performance que atraiu bilhões de dólares em capital externo e colocou Cohen entre os gestores mais procurados de Wall Street. Para manter esses resultados, o fundo usava alavancagem significativa e apostava em posições concentradas quando a convicção era alta, aplicando em paralelo práticas de stop loss para limitar perdas em operações desfavoráveis.
A trajetória da SAC Capital foi interrompida por uma das maiores investigações de uso de informação privilegiada da história do mercado americano. A partir de 2010, a Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos (SEC) e o Departamento de Justiça iniciaram uma investigação abrangente sobre as práticas de obtenção de informações na SAC.
Ao longo da investigação, vários gestores e analistas da SAC foram indiciados e condenados por uso de informações privilegiadas em operações com ações de empresas como Elan Pharmaceuticals e Wyeth. O caso mais emblemático envolveu o gestor Mathew Martoma, condenado a nove anos de prisão por insider trading que gerou ganhos e evitou perdas de aproximadamente US$ 276 milhões para o fundo.
Em 2013, a SAC Capital se declarou culpada de fraude de valores mobiliários e pagou US$ 1,8 bilhão em multas, o maior acordo de insider trading da história dos EUA até então. Cohen não foi pessoalmente indiciado criminalmente, mas a SEC abriu um processo administrativo que o proibiu de gerir dinheiro de terceiros por um período. O acordo final foi firmado em 2016.
O episódio levantou questões profundas sobre os limites entre pesquisa agressiva e uso ilegal de informação nos mercados financeiros. Para Cohen, foi uma lição cara sobre a necessidade de construir uma cultura de compliance robusta em qualquer operação de investimento.
Em 2014, Cohen transformou a SAC Capital em uma family office, renomeada Point72 Asset Management. O nome faz referência ao endereço da sede da empresa em Stamford: 72 Cummings Point Road. Nessa fase inicial, a Point72 gerenciava exclusivamente o patrimônio pessoal de Cohen, sua família e funcionários elegíveis.
Em 2018, após a resolução dos processos regulatórios, a Point72 voltou a captar recursos externos. Em seu primeiro ano aceitando capital de terceiros, a gestora levantou US$ 5,76 bilhões, demonstrando que a confiança do mercado em Cohen permanecia sólida mesmo após os anos de escândalo. Hoje, a Point72 administra mais de US$ 30 bilhões em ativos e opera escritórios em mais de dez cidades ao redor do mundo.
A Point72 opera com uma abordagem multiestratégica que inclui renda variável long/short, macro global, crédito e estratégias quantitativas. A gestora mantém times especializados por setor, como tecnologia, saúde, energia e finanças, e investe em mercados de ações, ETFs, opções e outros derivativos. A diversificação entre estratégias e mercados é um dos pilares da operação atual.
Cohen também criou a Point72 Academy, programa de formação interna que treina analistas jovens no modelo de investimento da gestora. O programa tornou-se uma das principais fontes de talentos da empresa e é citado como exemplo de como construir cultura de alta performance sem depender exclusivamente de contratações externas caras.

A história de Cohen oferece reflexões importantes para qualquer pessoa que opere nos mercados financeiros, tanto pelos sucessos quanto pelos erros.
A primeira lição é sobre a busca por vantagem informacional legítima. Cohen sempre acreditou que o diferencial de qualquer bom gestor está em saber mais sobre um negócio do que o mercado em geral. Para o investidor individual, isso significa estudar profundamente as empresas e setores nos quais investe, seja no mercado de ações, seja em instrumentos como CFDs para operar ações internacionais.
A segunda lição é sobre gestão de risco como cultura, não como regra. Um dos problemas da SAC Capital foi que a pressão por resultados superou os controles internos. Cohen reconhece isso publicamente e afirma que a Point72 foi construída com compliance no centro de sua operação. Para qualquer trader, isso se traduz em respeitar os limites de posição, usar ordens de proteção adequadas e nunca operar sem um plano de saída definido.
A terceira lição é sobre resiliência. Cohen perdeu bilhões em multas, enfrentou anos de investigação e viu sua empresa principal ser desmantelada. Em vez de se retirar do mercado, reinventou sua operação, adaptou sua cultura e voltou a resultados competitivos. Nos mercados financeiros, a capacidade de aprender com erros e seguir em frente é tão importante quanto qualquer estratégia de entrada ou saída.
A quarta lição é sobre a importância de entender os impactos macroeconômicos nos mercados. Cohen sempre combinou análise de empresas individuais com uma visão clara do ambiente macroeconômico, ajustando sua exposição conforme as condições de juros, inflação e liquidez mudavam.
Steven Cohen é uma das figuras mais complexas e fascinantes de Wall Street. Sua trajetória combina genialidade operacional, erros graves de governança e uma capacidade rara de reconstrução. A Point72 é hoje uma das maiores e mais respeitadas gestoras do mundo, prova de que resultados consistentes e cultura de compliance robusta podem coexistir. Para investidores de qualquer nível, a história de Cohen é um lembrete de que o mercado pune tanto a imprudência quanto a arrogância, mas recompensa quem aprende com ambas.
Sim. Cohen é presidente e CEO da Point72 Asset Management, que administra mais de US$ 30 bilhões em ativos e opera globalmente com diversas estratégias de investimento.
Em 2013, a SAC Capital pagou US$ 1,8 bilhão em multas por insider trading e encerrou suas operações como fundo aberto a investidores externos, sendo transformada na family office Point72 em 2014.
Não. Cohen não foi indiciado criminalmente. Assinou acordo com a SEC em 2016 e cumpriu período de restrição para gerir capital de terceiros, voltando a captar externamente em 2018.
Não. A Point72 é uma gestora institucional voltada a investidores qualificados, como fundos soberanos, endowments, family offices e pessoas físicas de altíssimo patrimônio.
Sim. Em 2020, Cohen comprou o New York Mets, time de beisebol da Major League Baseball, por US$ 2,4 bilhões, tornando-se um dos proprietários de times mais ricos dos EUA.
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