Publicado em: 2026-06-15
Atualizado em: 2026-06-16
O endividamento das famílias brasileiras atingiu 81.6% em maio de 2026. novo recorde histórico da série da PEIC (Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor), divulgada pela CNC na quarta-feira (10). É a quinta alta consecutiva. Em termos práticos: de cada dez famílias no Brasil, mais de oito carregam alguma dívida, seja cartão de crédito, carnê, financiamento de veículo, cheque especial ou crédito pessoal. O número supera os 80.9% de abril e está 3.4 pontos percentuais acima dos 78.2% registrados em maio de 2025.

O dado bruto, por si só, já é grave. Mas a leitura técnica do cenário fica mais aguda quando a PEIC é aberta por faixa de renda. Entre famílias com renda de até três salários mínimos, a inadimplência saltou 1.7 ponto percentual em um único mês, alcançando 38.6%. Isso significa que quase 4 em cada 10 famílias de baixa renda já estão com contas em atraso. E 18% dessas famílias declararam que simplesmente não terão condições de pagar. O problema estrutural não é o volume de dívida em si: é a combinação de juros altos, cartão de crédito rotativo a 428% ao ano e ausência de capacidade de pagamento na base da pirâmide de renda.
A CNC publica a PEIC mensalmente desde janeiro de 2010. Em dezesseis anos, o indicador nunca foi tão alto quanto agora. O recorde anterior havia sido estabelecido em abril de 2026. com 80.9%, que por sua vez superou março. A sequência de cinco altas consecutivas sinaliza que o endividamento não é um pico isolado: é uma tendência estrutural em aceleração. A alta de 3.4 pontos percentuais em doze meses reflete a combinação de custo de crédito elevado, inflação persistente e expansão do crédito para segmentos de maior risco.
O cartão de crédito permanece como o principal vetor do endividamento, citado por 84.6% das famílias endividadas. Em segundo lugar aparecem os carnês (16.1%) e o crédito pessoal (13.1%). O rotativo do cartão opera à taxa de 428.3% ao ano, a mais alta modalidade de crédito ao consumidor do país. Quando uma família não consegue quitar a fatura integral, o saldo migra para esse mecanismo e o custo da dívida cresce em velocidade que a renda não acompanha.
A abertura da PEIC por renda revela o ponto mais crítico do relatório. A lógica esperada seria que famílias de menor renda se endividassem menos por terem menos acesso a crédito. O que os dados mostram é o oposto: são justamente as famílias que ganham menos que estão mais endividadas, com inadimplência mais alta e menor capacidade declarada de pagamento.
| Faixa de Renda | Endividamento | Inadimplência | Não pagarão | Situação |
|---|---|---|---|---|
| Até 3 salários mínimos | 85,0% | 38,6% | ~18% | Crítica |
| De 3 a 5 salários mínimos | 83,1% | ~28% | ~12% | Elevada |
| De 5 a 10 salários mínimos | ~78% | ~22% | ~8% | Moderada |
| Acima de 10 salários mínimos | 70,0% | 15,0% | 4% | Controlada |
O rotativo do cartão de crédito é o componente mais nocivo do endividamento das famílias brasileiras. Quando o consumidor não paga o valor integral da fatura, o saldo remanescente é automaticamente transferido para o crédito rotativo, que cobra 428.3% ao ano, a taxa mais alta entre todas as modalidades de crédito livre no país. Em termos práticos, uma dívida de R$ 1.000 no rotativo custaria teoricamente mais de R$ 5.280 em um ano se nenhum pagamento adicional fosse feito.
A lei que limita os juros do rotativo a 100% do valor original da dívida entrou em vigor em janeiro de 2024. A medida reduziu o saldo máximo, mas não impactou a taxa de juros mensal cobrada na contratação do crédito. O economista-chefe da CNC, Fabio Bentes, alertou que "as taxas de juros ao consumidor final reagem de forma lenta à redução da Selic, e o custo de carregar essas dívidas consome o poder de compra" mesmo durante o ciclo de queda dos juros básicos.
O Copom cortou a Selic de 15% para 14.75% em março de 2026. depois para 14.5% em abril. O ciclo de queda, após sete altas consecutivas entre setembro de 2024 e junho de 2025. chegou com atraso para a base de renda mais afetada. O problema central é que a transmissão da Selic para as taxas ao consumidor final ocorre com defasagem de meses, e as taxas do rotativo do cartão ainda permanecem acima de 400% ao ano.
O governo federal lançou o Desenrola 2.0 em maio de 2026. com foco na renegociação de dívidas de famílias de baixa renda, estudantes e pequenas empresas. A CNC avalia que "as atenções do mercado se voltam para o Desenrola 2.0", mas alerta que os efeitos do programa original foram temporários: após o Desenrola 1.0. o endividamento e a inadimplência retomaram as trajetórias anteriores já em 2025. O FGV IBRE aponta que o programa não atacou os fundamentos estruturais que geram o superendividamento.
Set/2024 - Jun/2025
Copom eleva Selic por 7 vezes consecutivas
Taxa sai de 10.5% para 15% ao ano. Crédito encarece e inadimplência começa a subir na base da pirâmide.
Jun/2025 - Fev/2026
Selic mantida em 15% por cinco reuniões seguidas
Endividamento das famílias retoma trajetória ascendente. Série PEIC inicia sequência de recordes mensais.
Mar/2026
Primeiro corte: Selic vai a 14.75%
Copom inicia ciclo de queda com corte de 0.25 pp. Mercado monitora ritmo de transmissão ao crédito ao consumidor.
Abr/2026
Segundo corte: Selic vai a 14.5%
Novo corte de 0.25 pp. Endividamento bate 80.9%, recorde na época. Inadimplência de baixa renda acelera.
Mai/2026
Desenrola 2.0 lançado. Endividamento bate novo recorde: 81.6%
Programa de renegociação entra em vigor enquanto a PEIC registra o pior número da série histórica. Inadimplência de baixa renda atinge 38.6%.
Nem todo indicador da PEIC de maio aponta deterioração. O percentual médio de comprometimento de renda recuou para 29.3%, abaixo do mês anterior. O tempo médio de atraso caiu para 65 dias, o menor nível de 2026. Entre os inadimplentes, 49.3% possuem débitos com mais de 90 dias de atraso, a menor fatia registrada no ano até agora. Esses dados sugerem que parte das famílias consegue regularizar pendências com mais rapidez, mesmo que o volume total de endividados continue crescendo.
A ampliação dos prazos também é um dado ambíguo: 33.3% das famílias endividadas carregam dívidas com prazo superior a um ano. Por um lado, isso indica maior acesso ao crédito parcelado de longo prazo. Por outro, eleva o risco sistêmico de inadimplência futura caso haja choques adicionais de renda ou emprego. O mercado financeiro acompanha esses indicadores de perto, pois sinalizam a qualidade da carteira de crédito dos bancos e a trajetória futura do consumo doméstico.
| Indicador | Maio 2026 | Abril 2026 | Maio 2025 | Tendência |
|---|---|---|---|---|
| Endividamento total | 81,6% | 80,9% | 78,2% | Piora |
| Inadimplência geral | 29,9% | 29,7% | 29,5% | Piora |
| Inadimp. baixa renda ( | 38,6% | 36,9% | ~36% | Piora forte |
| "Muito endividados" | 17,0% | 16,6% | ~15,5% | Piora |
| Não pagarão dívidas | 12,3% | 12,3% | 12,5% | Estável |
| Comprometimento de renda | 29,3% | 29,7% | ~30% | Leve melhora |
| Atraso médio (dias) | 65 dias | ~68 dias | ~70 dias | Melhora |
| Dívidas > 90 dias (% inadimp.) | 49,3% | ~51% | ~52% | Melhora |
Para o mercado financeiro, o avanço do superendividamento das famílias tem leitura direta em três vetores. Primeiro, a inadimplência crescente eleva o custo de risco das carteiras de crédito dos bancos, com impacto potencial nas provisões e nos resultados de instituições com maior exposição ao crédito ao consumidor de baixa renda. Segundo, o comprometimento de renda elevado comprime o consumo das famílias, com reflexo no varejo, especialmente no segmento de média e baixa renda. Terceiro, a pressão sobre o orçamento doméstico reduz a poupança e a capacidade de investimento das famílias.
O ciclo de queda da Selic é o principal catalisador prospectivo. Cada corte de 0.25 ponto percentual tem impacto limitado no rotativo do cartão, que opera em patamar quase 30 vezes superior à taxa básica. A transmissão efetiva ao custo do crédito ao consumidor depende de um ciclo mais longo de redução da Selic e de mudanças regulatórias adicionais sobre as taxas praticadas no rotativo. O Copom se reúne novamente em junho de 2026.
A PEIC é a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor, publicada mensalmente pela CNC (Confederação Nacional do Comércio). A série histórica começou em janeiro de 2010. O levantamento considera como dívidas cartão de crédito, cheque especial, carnê, crédito consignado, empréstimo pessoal, cheque pré-datado e prestações de veículo e imóvel.
A transmissão da Selic às taxas ao consumidor ocorre com defasagem de meses. O rotativo do cartão ainda opera a 428% ao ano, independente da Selic estar em 14.5%. O endividamento reflete dívidas contratadas no ciclo de alta anterior e a expansão do crédito para segmentos de maior risco durante o período de juros elevados.
Não por si só. O Desenrola 1.0 gerou alívio temporário: após o programa, o endividamento e a inadimplência retomaram as trajetórias anteriores já em 2025. O FGV IBRE aponta que o programa não atacou os fundamentos estruturais: juros do rotativo muito altos, insuficiência de renda e ausência de educação financeira na base da pirâmide.
Endividamento significa ter qualquer dívida a vencer, mesmo em dia. Inadimplência significa ter contas em atraso. Em maio, 81.6% das famílias tinham dívidas, mas só 29.9% estavam inadimplentes. O dado mais crítico é a inadimplência de baixa renda, que chegou a 38.6%.
A 428% ao ano, uma dívida de R$ 1.000 teoricamente mais do que quintuplica em doze meses sem pagamentos. Na prática, a lei limita o saldo total a 100% da dívida original, mas a taxa mensal aplicada na rolagem continua acima de 13%. É o produto financeiro mais caro disponível ao consumidor brasileiro.
Sim. Inadimplência crescente eleva o custo de provisões e comprime o lucro líquido, especialmente em bancos com alta exposição ao crédito ao consumidor de baixa renda. Fintechs e bancos digitais têm carteiras mais concentradas nesse perfil. Bancos com forte base de consignado são mais protegidos.
Sim. O comprometimento médio de renda recuou para 29.3%. O tempo médio de atraso caiu para 65 dias, o menor de 2026. O percentual de inadimplentes com dívidas acima de 90 dias também caiu para 49.3%. São sinais de melhora na capacidade de regularização, ainda insuficientes para reverter a tendência principal.
A CNC projeta novos avanços nos próximos meses antes de qualquer estabilização. A queda estrutural depende de um ciclo mais longo de redução da Selic com transmissão efetiva ao custo do rotativo, do resultado do Desenrola 2.0 na renegociação de dívidas e de eventual recuperação do poder de compra das famílias de menor renda.
O Brasil registrou em maio de 2026 o maior endividamento de famílias da história da PEIC pela quinta vez consecutiva. Os 81.6% não são apenas um número de macroeconomia: representam uma realidade de orçamento comprimido, cartão de crédito rolado a 428% ao ano e inadimplência crescente especialmente entre quem ganha até três salários mínimos.
O ciclo de corte da Selic está em curso, mas a transmissão ao custo real do crédito ao consumidor leva meses. O Desenrola 2.0 oferece alívio pontual para renegociação, mas o Desenrola 1.0 mostrou que sem mudanças nos fundamentos estruturais os efeitos são temporários. Para o mercado, os próximos catalisadores são a próxima reunião do Copom em junho e os resultados bancários do segundo trimestre, que vão revelar o impacto real da inadimplência nas provisões.
O próximo dado da PEIC, com os números de junho, será divulgado em julho. A CNC projeta que o indicador não para aqui.