Publicado em: 2026-06-25
O dólar abriu esta quarta-feira (24) acima de R$ 5,21 e operava com alta de 0,55% às 9h46, enquanto o dólar futuro para julho subia 0,63% na B3, a R$ 5,225. O movimento vem na esteira de dois dias seguidos de pressão: na terça (23), o dólar à vista fechou em alta de 0,87%, a R$ 5,1859, o maior valor de fechamento desde 30 de março. Em junho, a divisa americana acumula alta de quase 3% frente ao real.
O motor da valorização do dólar não é um único gatilho, mas a convergência de três vetores simultâneos: o tom hawkish do novo presidente do Fed, Kevin Warsh, que abriu a porta para alta de juros nos EUA ainda em 2026; a ata do Copom, que cortou a Selic para 14,25% mas deixou o mercado sem clareza sobre os próximos passos; e o fortalecimento global do dólar, com o DXY acumulando alta de 2,5% em junho. Essa combinação corrói o diferencial de juros que sustenta o carry trade no real.
Na reunião de 17 de junho, o Federal Reserve manteve os juros entre 3,50% e 3,75% por unanimidade, mas o tom adotado por Kevin Warsh, o novo presidente da instituição, virou o mercado de cabeça para baixo. O dot plot mostrou que 9 dos 18 membros do FOMC projetam ao menos uma alta de juros ainda em 2026, com a mediana subindo de 3,4% para 3,8% ao final do ano. Warsh abandonou o forward guidance e afirmou que a inflação ultrapassa a meta de 2% há mais de cinco anos.
Além disso, as projeções de inflação PCE para 2026 foram revisadas de 2,7% para 3,6%, enquanto o PIB foi cortado de 2,4% para 2,2%. O PMI composto dos EUA, divulgado na terça-feira (23), subiu de 51,5 para 52,2 em junho, o maior nível em cinco meses, reforçando a narrativa de que a economia americana segue aquecida. Com inflação alta e atividade resistente, a janela para cortes de juros nos EUA fecha. Para o real, isso significa menos capital externo em busca de carry.
O Banco Central cortou a Selic de 14,50% para 14,25% ao ano, mas a ata divulgada na terça-feira deixou o mercado dividido. O documento reconhece a desancoragem adicional das expectativas de inflação, especialmente para horizontes mais longos, com a projeção para o final de 2027 subindo para 3,7%, acima da meta de 3%. Para não provocar “volatilidade excessiva”, o Copom sinalizou que seguirá trajetórias de Selic mais próximas às previstas pelo mercado no Focus, contemplando “combinações de diferentes momentos de pausa e retomada do ciclo de calibração”.
A leitura do mercado foi ambígua: a curva de juros cedeu ao longo da tarde de terça, com a taxa do DI para janeiro de 2027 recuando para 14,185%, enquanto o vencimento para janeiro de 2035 ficou em 14,46%. O operadores entendem que o BC pode cortar novamente em agosto, mas sem compromisso claro. Para o câmbio, o risco é direto: se o diferencial Selic-Fed funds encolhe, o carry trade perde atratividade e o capital externo migra para o dólar.
O USD/BRL opera em movimento de recuperação depois de tocar a mínima de 52 semanas em R$ 4,8854 no início de maio, quando o diferencial de juros atraía fluxo para o real. A partir daí, o dólar acumulou alta de mais de 6% e rompeu resistências relevantes. A abertura desta quarta acima de R$ 5,20 confirma o rompimento da zona de consolidação lateral observada entre R$ 5,00 e R$ 5,15 nas últimas semanas.
O próximo nível de resistência relevante fica na faixa de R$ 5,24 a R$ 5,25, onde passa o dólar futuro para julho. Uma eventual acomodação pode testar o suporte de R$ 5,15 a R$ 5,17, região que funcionou como resistência anterior e pode servir de piso em caso de realização. O PCE americano, divulgado na quinta-feira (25), é o principal gatilho de curto prazo: se vier acima das estimativas, pode empurrar o dólar à resistência estrutural de R$ 5,35 a R$ 5,40.

A alta do dólar afeta diferentes perfis de investidor de formas distintas. Quem tem renda variável na B3 precisa observar o efeito câmbio sobre exportadoras, que ganham com dólar alto, versus empresas domésticas alavancadas em dólar. Quem tem renda fixa indexada ao CDI com Selic em 14,25% ainda carrega um diferencial elevado, mas o horizonte de pausa no ciclo de cortes reduz a segurança de travar posições longas sem hedge cambial.
Para o trader de forex, o cenário de curto prazo favorece posições compradas em dólar enquanto o DXY mantiver força e o PCE de maio, divulgado na quinta, 25/06, não surpreender para baixo. Um número de PCE acima de 2,6% ao mês pode empurrar o USD/BRL para a faixa de R$ 5,25 a R$ 5,30. Abaixo das estimativas, o dólar pode ceder para o suporte de R$ 5,15.
A alta combina três fatores simultâneos: o Fed sinalizando possível aumento de juros nos EUA em 2026, a ata do Copom gerando incerteza sobre o ritmo de cortes da Selic e o fortalecimento global do dólar, com o DXY acumulando alta de 2,5% em junho. O resultado é pressão direta sobre moedas emergentes, incluindo o real.
Carry trade é a estratégia de tomar emprestado em moeda com juros baixos, como o dólar, e aplicar em moeda com juros altos, como o real. Com a Selic em 14,25%, o Brasil atrai esse fluxo, o que valoriza o real. Quando o Fed ameaça subir juros e a Selic pode cair, o diferencial encolhe e o capital externo sai do real, pressionando o câmbio para cima.
O PCE (Personal Consumption Expenditures) é o índice de inflação preferido do Fed para calibrar a política monetária. Se o PCE de maio vier acima das estimativas, aumenta a probabilidade de alta de juros nos EUA, fortalece o dólar globalmente e pode empurrar o USD/BRL para R$ 5,25 ou mais. Abaixo do esperado, o movimento se inverte.
A ata não fecha a porta para um novo corte em agosto, mas tampouco o garante. O Copom sinalizou que vai seguir trajetórias de Selic próximas às precificadas pelo mercado no Focus, admitindo “diferentes momentos de pausa e retomada”. A maioria dos analistas ainda projeta corte de 0,25 p.p. em agosto, mas o cenário depende dos próximos dados de inflação.
Ganham exportadoras, como Petrobras, Vale e agronegócio, quem tem BDRs ou ETFs internacionais e quem mantém reservas em dólar. Perdem empresas domésticas com dívida em dólar, importadoras e quem viaja ao exterior. Para a inflação, um dólar persistentemente acima de R$ 5,20 alimenta pressão de preços em bens importados e energia.
A máxima de 52 semanas é R$ 5,6307. Para retornar a esse nível, seria necessária combinação de PCE americano acima do esperado, alta concreta de juros pelo Fed, deterioração fiscal no Brasil ou piora relevante do ambiente externo. O cenário base dos operadores projeta USD/BRL entre R$ 5,10 e R$ 5,35 no curto prazo, sem catalisador de ruptura imediata.
Dolarizar parte da carteira via BDRs, ETFs cambiais ou fundos internacionais é uma estratégia de diversificação reconhecida, não de timing de câmbio. Entrar em dólar com objetivo de especular no curto prazo exige entender as zonas técnicas do par USD/BRL e os catalisadores da semana, especialmente o PCE de quinta-feira. Consulte seu assessor antes de qualquer decisão.
O dólar acima de R$ 5,20 nesta quarta não é ruído. É o resultado de um alinhamento claro entre um Fed mais hawkish do que o esperado, um Copom que cortou juros com a inflação desancorada e um DXY em máximas de mais de um ano. O diferencial de juros entre Brasil e EUA ainda sustenta o carry trade no papel, mas a volatilidade crescente do real corrói o retorno ajustado ao risco que justificava esse fluxo.
Para o trader, os olhos ficam no PCE de maio na quinta-feira (25/06): um número acima das estimativas consolida a tendência de alta do dólar e abre espaço técnico para R$ 5,25 a R$ 5,30. Abaixo do esperado, a zona de suporte em R$ 5,15 a R$ 5,17 será testada. Para o investidor, a mensagem é de diversificação, não de pânico: exportadoras e BDRs funcionam como hedge natural nesse ambiente. A decisão do Copom em agosto e o Focus das próximas semanas serão o próximo termômetro do real.