Publicado em: 2026-08-26
Atualizado em: 2026-08-26
Depois de acumular dinheiro por quatorze trimestres seguidos, a Berkshire Hathaway voltou a comprar. O caixa do conglomerado, que se aproximava de US$ 400 bilhões, encerrou junho perto de US$ 365 bilhões, na primeira retração sequencial em mais de três anos. A mudança marca a primeira grande virada de alocação sob a gestão de Greg Abel.
O movimento não passou despercebido. As ações chegaram a subir 3,3% em 10 de agosto de 2026, atingindo o maior patamar desde que a sucessão na presidência foi anunciada, em maio de 2025. No centro da história está uma posição bilionária em Alphabet, construída de forma pouco convencional.

No segundo trimestre, a companhia comprou cerca de US$ 23,5 bilhões em ações e vendeu apenas US$ 3,7 bilhões. O saldo líquido comprador de aproximadamente US$ 20 bilhões encerrou uma sequência de quatorze trimestres em que a empresa foi vendedora líquida de participações.
Além das compras em bolsa, houve duas operações de porte. A aquisição da construtora residencial Taylor Morrison consumiu US$ 6,8 bilhões, e a recompra das próprias ações somou US$ 4,5 bilhões. Somadas, essas frentes explicam boa parte da redução do colchão de liquidez.
O contexto ajuda a dimensionar a mudança. Durante quatorze trimestres, a companhia manteve uma parcela expressiva do caixa aplicada em títulos do Tesouro americano de curto prazo, colhendo rendimento sem assumir risco de mercado. Essa estratégia funcionava enquanto os juros nos Estados Unidos permaneciam elevados e as avaliações em bolsa pareciam esticadas.
A movimentação do trimestre altera essa equação. Ao migrar recursos de aplicações de baixo risco para participações acionárias e para a compra integral de uma empresa, a gestão assume exposição a oscilações de preço em troca de retorno potencial mais alto no longo prazo. É uma decisão de alocação, não uma aposta tática de curto período.
A leitura dividiu o mercado. Parte dos analistas viu na alocação um sinal de disciplina recompensada, na linha do que Warren Buffett sempre defendeu sobre esperar o preço certo. Outra parte questionou o momento, argumentando que ativos públicos e privados seguem caros e que desmontar um caixa defensivo agora exige convicção elevada.
O aporte de US$ 10 bilhões em Alphabet foi feito diretamente com a companhia, sem passar pelo mercado aberto. O formulário 13F entregue em 14 de agosto de 2026 mostrou uma adição total próxima de US$ 17 bilhões à posição, o que sugere cerca de US$ 7 bilhões comprados em bolsa além do bloco negociado diretamente.
Com isso, a Alphabet passou a empatar com a Coca-Cola como terceira maior participação da carteira, com cerca de 10,2% do total cada. Para uma posição iniciada há poucos trimestres, é uma escalada rápida e um voto de confiança relevante no negócio conduzido pelo CEO da Alphabet.
A tese parece combinar dois elementos clássicos da casa: fosso competitivo defensável, representado pela busca e pela publicidade digital, e múltiplo considerado razoável frente às demais grandes companhias de tecnologia. Investidores brasileiros que acompanham o setor costumam se perguntar como obter exposição, e há caminhos como ações da Alphabet via CFDs para quem não quer abrir conta no exterior.
Vale notar o formato da operação. Comprar um bloco diretamente da companhia, e não no pregão, evita pressionar o preço e costuma envolver negociação prévia entre as partes. Para traders que buscam exposição direta ao papel, o GOOGL está entre os share CFDs listados na página de stock CFDs da EBC, com especificações de contrato disponíveis para consulta.
O lucro operacional, métrica que a própria empresa considera a mais representativa, cresceu 16,3% e alcançou US$ 12,98 bilhões no trimestre. O resultado líquido mais que dobrou, para US$ 25,67 bilhões, impulsionado por ganhos contábeis na marcação da carteira de investimentos.
O segmento de manufatura, serviços e varejo teve alta de 24% no lucro, para US$ 4,47 bilhões. Já a operação de seguros mostrou fraqueza no resultado de subscrição, pressionada por aumento de sinistros de acidentes e por maior gasto com publicidade na seguradora de automóveis do grupo.
Essa combinação é informativa. O motor industrial e de serviços segue saudável, enquanto o negócio historicamente mais rentável do conglomerado enfrenta um ciclo mais duro de precificação. Não é um sinal de deterioração estrutural, mas ajuda a explicar por que a companhia buscou retorno na carteira de ações.
A troca de comando raramente é neutra. Ao reduzir o caixa e concentrar capital em posições de alta convicção, a nova gestão indica disposição para agir quando enxerga assimetria, sem abandonar o critério de preço. O portfólio segue exposto a companhias listadas na bolsa americana, e entender o funcionamento da Nasdaq ajuda a interpretar o peso crescente de tecnologia na carteira.
Para o investidor pessoa física, a lição operacional é menos sobre copiar posições e mais sobre método. Manter liquidez enquanto os preços não convencem e alocar de forma concentrada quando convencem é uma disciplina difícil de sustentar. A diversificação cumpre papel semelhante para quem não tem estrutura para esperar anos por uma oportunidade.

Há também um alerta embutido. Replicar decisões de grandes gestores tem limitação evidente: o formulário trimestral chega com semanas de atraso e não revela o preço médio pago nem o horizonte pretendido. Quando a informação se torna pública, o ativo já pode ter se movimentado de forma relevante, o que distorce a relação entre risco e retorno para quem entra depois.
O tamanho da carteira também muda o cálculo. Um conglomerado que precisa alocar dezenas de bilhões tem um universo restrito de alternativas viáveis, e isso influencia quais empresas consegue comprar. Um investidor individual não enfrenta essa restrição e pode considerar oportunidades que sequer entrariam no radar de uma estrutura desse porte.
Três indicadores merecem monitoramento. O primeiro é o ritmo de recompras, que revela como a gestão enxerga o valor das próprias ações. O segundo é a recuperação da margem de subscrição em seguros, componente decisivo para o lucro operacional recorrente.
O terceiro é o destino do caixa remanescente. Mesmo após a redução, o montante segue elevado em termos absolutos e continua sendo a variável mais observada a cada divulgação trimestral. Novas aquisições integrais de empresas, e não apenas compras em bolsa, seriam a confirmação mais forte de uma mudança de postura.
A discussão sobre valuation que cerca as decisões da Berkshire Hathaway se resolve, na prática, no nível do índice. Se esta análise despertou interesse em acompanhar como o mercado americano precifica risco de forma agregada, o SPXUSD oferece exposição ao conjunto das grandes companhias listadas nos Estados Unidos, com negociação estendida ao longo do dia. Traders que querem examinar horários de negociação e condições podem consultar a página de índices da EBC, com acesso à liquidez institucional.
É a declaração trimestral que grandes gestores nos Estados Unidos enviam ao regulador local, listando as posições em ações americanas até 45 dias após o fim do trimestre.
As duas classes representam a mesma empresa. A classe B tem preço unitário muito menor e direito de voto proporcionalmente reduzido em relação à classe A.
É o presidente executivo da Berkshire Hathaway, escolhido como sucessor após anos à frente das operações de energia e das empresas não seguradoras do grupo.
Historicamente não distribui dividendos aos acionistas, preferindo reinvestir o lucro, ainda que receba proventos das companhias em que mantém participação.
É a compra dos próprios papéis pela companhia no mercado, o que reduz a quantidade de ações em circulação e tende a elevar o lucro por ação.