Publicado em: 2026-09-12
Atualizado em: 2026-09-12
A Amil não vai mudar de dono. O empresário José Seripieri Filho, conhecido como Júnior, encerrou as negociações com os fundos Bain Capital e Advent, que ofereciam cerca de R$ 17 bilhões por 100% da operadora, segundo o Estadão/Broadcast. A decisão foi comunicada aos funcionários na quinta (10), em texto assinado pelo Conselho de Administração.
O motivo central foi o controle. Júnior queria vender apenas parte da empresa, enquanto os fundos exigiam a compra integral. A Amil informou que o processo terminou sem qualquer mudança societária, mas que segue aberta a propostas futuras de investimentos minoritários.
O caso ajuda a entender como funcionam as negociações de private equity, por que ativos de saúde atraem tanto capital e o que pode acontecer com a companhia daqui em diante.

As conversas duraram pelo menos seis meses. Inicialmente, o dono da Amil pretendia vender cerca de 30% da operadora. Bain Capital e Advent, porém, só aceitavam comprar 100%. Nas últimas semanas, segundo o Valor Econômico, Júnior chegou a admitir a venda integral, o que fez as tratativas avançarem.
Na manhã de quinta, a eventual venda voltou a ser discutida em reunião com os investidores. Horas depois, a empresa enviou o comunicado aos cerca de 22 mil funcionários informando o encerramento do processo. Na mensagem, a gestão destacou a virada da companhia e afirmou que os resultados recentes despertaram o interesse de grandes fundos.
Os fundos tinham planos definidos. A ideia era colocar Irlau Machado no comando e repetir o modelo aplicado na NotreDame Intermédica, que depois foi incorporada pela Hapvida, com uma possível listagem da Amil na B3 no futuro.
Não é a primeira vez que a Bain Capital mira a Amil. Em 2023, quando a UnitedHealth colocou a operadora à venda, a gestora estava entre os interessados, com a mesma intenção de repetir o sucesso obtido na NotreDame Intermédica. Na época, a dona americana preferiu a proposta de Júnior, que aceitou assumir todos os riscos do negócio e garantiu uma saída mais rápida.
A explicação mais direta é que Júnior nunca quis abrir mão do controle. Pessoas próximas ao empresário relataram ao Brazil Journal que ele sempre teve dúvidas sobre o negócio, e que o acordo acabou travado por questões técnicas. Quando o vendedor não está convencido, qualquer detalhe se torna motivo para desistir.
Há também um componente estratégico. Júnior comprou a Amil da UnitedHealth Group em dezembro de 2023, quando a operadora acumulava prejuízos. A saída da gigante americana, cujas ações da UnitedHealth enfrentaram forte pressão desde então, abriu espaço para uma das reestruturações mais comentadas do setor.
Outro fator é o potencial de valorização. Cálculos de mercado citados pelo Brazil Journal indicam que, com um múltiplo de 10,5 vezes EV/Ebitda, uma Amil listada em bolsa poderia valer R$ 40 bilhões, mais que o dobro da oferta recebida. Vender agora significaria abrir mão desse ganho potencial.
Na compra, Júnior pagou R$ 2 bilhões e assumiu cerca de R$ 9 bilhões em contingências, por isso o mercado costuma avaliar a transação em R$ 11 bilhões. Menos de três anos depois, a oferta de R$ 17 bilhões mostra quanto o ativo se valorizou aos olhos dos investidores.
Vale, porém, colocar o múltiplo em perspectiva. A Rede D'Or, maior rede hospitalar privada do país, negocia hoje a cerca de 8 vezes EV/Ebitda, contra uma média histórica de 11,7 vezes desde o IPO, segundo a Bloomberg. Ou seja, as contas que levam a Amil a R$ 40 bilhões usam um múltiplo acima do praticado atualmente no setor.
A virada veio de uma gestão mais enxuta. A nova administração simplificou o organograma, cortou camadas de gerência e gerou economia de R$ 470 milhões por ano apenas na folha de pagamento. Também adotou uma política de preços mais rigorosa e uma postura comercial mais agressiva.
O resultado aparece nos números. A Amil tem mais de 3,5 milhões de clientes, não tem dívida e deve encerrar 2026 com Ebitda entre R$ 2,5 bilhões e R$ 3 bilhões, o maior dos últimos 15 anos. Ebitda não é o mesmo que lucro, mas é um indicador muito usado para comparar a geração de caixa operacional entre empresas do setor.
Fundos de private equity compram participações relevantes em empresas, implementam mudanças de gestão e buscam vender o ativo com lucro alguns anos depois, muitas vezes por meio de uma abertura de capital. Por isso, costumam exigir o controle, como fizeram Bain Capital e Advent. Sem poder decidir a estratégia, a tese de valorização perde força.
A saúde suplementar é um alvo natural para esse modelo. O setor é fragmentado, tem margens apertadas e passa por consolidação. Em 2023, a margem líquida média das operadoras foi de apenas 0,8%, o que favorece grupos com escala e capacidade de cortar custos. Muitas dessas aquisições, porém, são financiadas com dívida, e a alavancagem amplia tanto os ganhos quanto os riscos.
O apetite dos fundos também depende do custo do dinheiro. Com juros elevados, financiar uma compra bilionária fica mais caro, e a liquidez global passa a influenciar diretamente quanto os investidores aceitam pagar por ativos como a Amil.
A promessa de uma listagem futura também pesa. Um IPO pode multiplicar o valor de um ativo, mas o ágio de estreia em IPO nem sempre se sustenta depois dos primeiros pregões, o que torna o momento da abertura de capital decisivo para o retorno dos investidores.
No curto prazo, a estrutura da companhia continua a mesma. A Amil deve seguir com o plano de crescimento apresentado aos funcionários, com a meta declarada de buscar a liderança da saúde suplementar brasileira.

A porta, porém, não está fechada. Segundo o Brazil Journal, parte da diretoria é contra endividar a empresa, e a entrada de um sócio minoritário ajudaria a financiar aquisições em um momento em que vários grupos regionais estão enfraquecidos. Para o mercado, o recado é claro: a Amil está aberta a parceiros, desde que o controle continue nas mãos de Júnior.
Outro ponto a acompanhar é a sinistralidade, a parcela das receitas consumida por despesas médicas. Qualquer piora nesse indicador pressiona margens e pode mudar rapidamente o interesse de investidores, tanto por uma fatia minoritária quanto por uma futura abertura de capital.
Para quem acompanha como grandes grupos de saúde são avaliados e quer ampliar o olhar para empresas listadas no exterior, a página de stock CFDs da EBC reúne ações internacionais como AMZN, que também atua em saúde por meio da One Medical. Assim como no caso da Amil, preços de ações reagem a resultados e aquisições, e podem oscilar com a mesma intensidade para os dois lados.
Não. A Amil é uma empresa de capital fechado, então não é possível comprar suas ações na B3. Uma listagem só ocorreria se os controladores decidissem abrir capital.
É um múltiplo que divide o valor da firma, soma do valor de mercado com a dívida líquida, pelo Ebitda. Quanto menor, mais barata a empresa parece frente à geração de caixa.
É o empresário conhecido como Júnior, fundador da Qualicorp, administradora de planos de saúde coletivos. Ele assumiu o controle da Amil em 2024.
Para planos individuais contratados após a Lei 9.656/98, a ANS autorizou reajuste de até 5,11% no ciclo de maio de 2026 a abril de 2027.
A Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), que autoriza o funcionamento das operadoras, fiscaliza a qualidade dos serviços e acompanha a saúde financeira do setor.