Publicado em: 2026-04-07
Michael Burry é um médico americano que abandonou a medicina para se tornar um dos investidores mais influentes de Wall Street. Ele ficou mundialmente conhecido por ter previsto o colapso do mercado imobiliário dos Estados Unidos com anos de antecedência e por ter lucrado cerca de US$ 800 milhões apostando contra os títulos lastreados em hipotecas subprime, enquanto bancos e instituições tradicionais quebravam.
Sua história inspirou o livro A Jogada do Século, de Michael Lewis, e o filme A Grande Aposta, de 2015, no qual é interpretado por Christian Bale.
Para quem atua ou quer entender o mercado financeiro, a trajetória de Michael Burry oferece uma das lições mais completas sobre análise fundamentalista, gestão de risco e convicção diante da pressão do mercado.

Michael James Burry nasceu em 19 de junho de 1971 em San José, Califórnia. Ainda criança, foi diagnosticado com retinoblastoma, um tipo raro de câncer que afeta a retina, e perdeu o olho esquerdo aos dois anos de idade.
Desde então, usa uma prótese ocular. Essa experiência marcou sua personalidade: Burry cresceu introvertido, com dificuldade para se conectar socialmente, e optava por atividades individuais como natação.
Mais tarde, seria diagnosticado com Síndrome de Asperger, condição que ele mesmo identificou ao perceber semelhanças com o quadro do filho. Para Burry, o traço autista contribuiu diretamente para sua capacidade de mergulhar em análises profundas sem se distrair com o ruído do mercado.
No campo acadêmico, graduou-se em Economia pela Universidade da Califórnia (UCLA) e depois concluiu o curso de Medicina pela Vanderbilt University School of Medicine, em 1997. Iniciou residência em neurologia e patologia na Universidade de Stanford, mas abandonou o percurso antes de concluir para se dedicar integralmente ao mercado financeiro.
Mesmo durante a residência médica, Burry mantinha um blog onde publicava análises detalhadas sobre ações, com abordagem estritamente fundamentalista. Suas publicações chamaram a atenção de gestores experientes, incluindo Joel Greenblatt, fundador do Gotham Capital, que o procurou pessoalmente após ler seus textos.
Em 2000, Burry abandonou a medicina e fundou a Scion Capital com recursos próprios obtidos de herança familiar e empréstimos. O nome do fundo foi inspirado em seu livro favorito, Os Herdeiros de Shannara, do escritor Terry Brooks. Seu estilo de value investing era baseado na obra clássica Security Analysis, de Benjamin Graham e David Dodd: identificar empresas com valor intrínseco maior do que o preço de mercado.
Os resultados foram imediatos. No primeiro ano completo de operação, em 2001, a Scion Capital registrou valorização de 55%, enquanto o índice S&P 500 caiu quase 12%. Em 2002, subiu mais 16%, ano em que o S&P recuou 22%. Em 2003, avançou 50%. Ao final de 2004, Burry já gerenciava cerca de US$ 600 milhões em ativos, e chegou a recusar novos investidores.
A operação que tornaria Burry uma lenda global começou em 2003 e 2004, quando ele passou meses analisando prospetos de hipotecas subprime, linha por linha. Subprime eram empréstimos imobiliários concedidos a tomadores com histórico de crédito ruim ou sem garantias suficientes, muitos deles com taxas de juros artificialmente baixas nos primeiros anos, que depois disparavam.
Burry identificou que esses títulos eram estruturados de forma a esconder o risco real, e que uma grande onda de inadimplência era inevitável assim que as taxas iniciais vencessem, provavelmente em 2007. Para lucrar com essa previsão, precisava de um instrumento financeiro que ainda não existia naquele mercado: um seguro contra o calote dos títulos hipotecários.
Em 2005, Burry procurou os maiores bancos de Wall Street e convenceu o Deutsche Bank e o Goldman Sachs a criarem contratos de credit default swaps (CDS) lastreados em hipotecas subprime. Ele investiu US$ 750 milhões nessa aposta, pagando prêmios mensais enquanto aguardava o colapso.
A espera foi dolorosa. Durante dois anos, os prêmios corroíam o caixa do fundo, os investidores ficaram furiosos, ameaçaram processos e exigiram saques. Burry acionou cláusulas contratuais que bloqueavam resgates e manteve a posição.
Em 2007, o colapso veio: a inadimplência disparou, os títulos desmoronaram e os CDS de Burry multiplicaram de valor. Ao final, a Scion Capital lucrou mais de US$ 700 milhões para os investidores e US$ 100 milhões para Burry pessoalmente.
A filosofia de Michael Burry é profundamente analítica e contrária ao consenso. Ele nunca tomou decisões com base em tendências do mercado ou na opinião da maioria. Seus princípios centrais incluem:
• Margem de segurança: Todo investimento deve ser feito com desconto significativo em relação ao valor intrínseco do ativo. Essa ideia, herdada de Benjamin Graham, é a base de toda sua seleção de ativos.
• Pesquisa independente e profunda: Burry lia prospectos, balanços e relatórios extensos que a maioria dos analistas ignorava. Foi essa leitura minuciosa que revelou a fragilidade dos títulos subprime quando ninguém mais enxergava o problema.
• Convicção sob pressão: Burry manteve posições por anos mesmo com investidores furiosos e mercado na direção oposta. Para ele, estar certo no longo prazo vale mais do que ser aprovado no curto prazo.
• Gestão de risco estruturada: Mesmo com posições altamente concentradas, Burry usava instrumentos que limitavam sua perda máxima aos prêmios pagos, como os CDS. Esse conceito de risco assimétrico é fundamental para entender sua estratégia, assim como o uso do stop loss como ferramenta de proteção.
• Pensamento contrário: "Toda a minha seleção de ações é 100% baseada no conceito de margem de segurança", disse Burry. Esse pensamento o levou a apostar contra tendências dominantes em múltiplas ocasiões, da bolha das pontocom à valorização das ações de inteligência artificial.

Após o sucesso de 2007 e 2008, Burry encerrou a Scion Capital e passou anos gerenciando apenas capital próprio. Em 2013, reabriu as operações sob o nome Scion Asset Management, voltando ao radar de investidores e da mídia por suas apostas contrárias ao consenso.
Ao longo dos anos seguintes, chamou atenção ao alertar sobre bolhas em ETFs, no mercado de criptomoedas e nas ações de tecnologia. Em 2025, seu fundo revelou posições vendidas massivas contra Nvidia e Palantir, apostando contra a narrativa de valorização ligada à inteligência artificial.
Esse tipo de análise macroeconômica e de fluxo de mercado lembra a abordagem de outros grandes traders que acompanham de perto o impacto das decisões dos bancos centrais e as tendências de longo prazo.
Em novembro de 2025, Burry encerrou definitivamente a Scion Asset Management, cancelando seu registro junto à SEC e devolvendo o capital aos investidores. Em seguida, lançou a newsletter paga Cassandra Unchained, no Substack, onde publica análises sobre mercados, bolhas e ideias de investimento.
O nome é uma referência à personagem mitológica grega condenada a sempre dizer a verdade sem ser acreditada, apelido que Warren Buffett usou para descrever Burry em seu depoimento ao Congresso americano sobre a crise financeira de 2008.
Michael Burry é um dos casos mais extraordinários da história do mercado financeiro: um médico autodidata que, por meio de análise independente e convicção inabalável, identificou e lucrou com uma das maiores crises econômicas do século. Sua trajetória ensina que o mercado pode estar errado por longos períodos, e que a disciplina analítica vale mais do que seguir o consenso.
Para investidores que buscam desenvolver um olhar crítico sobre os mercados, entender como as guerras comerciais afetam as moedas e como eventos macroeconômicos movem preços são pontos de partida fundamentais, assim como foram para Burry.
Burry lucrou cerca de US$ 100 milhões pessoalmente e gerou mais de US$ 700 milhões para os investidores da Scion Capital com a aposta contra os subprimes.
Sim. Apesar de não exercer a medicina, Burry mantém sua licença médica ativa junto ao Conselho Médico da Califórnia, com cursos de atualização.
É a newsletter paga de Michael Burry no Substack, lançada em novembro de 2025 após o encerramento da Scion Asset Management. Custa US$ 379 por ano.
Ele acredita que sim. Fez um autodiagnóstico após o filho ser diagnosticado com a condição, e atribui a ela parte de sua capacidade analítica.
Burry acredita que ações ligadas à IA estão supervalorizadas. Em 2025, apostou contra Nvidia e Palantir com opções de venda no valor de US$ 1,1 bilhão.
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